Muncle Trogg e o Burro Voador

Sei que comecei errado: minha primeira interação com a criação de Janet Foxley foi com esse segundo livro da série do menor gigante do mundo. Ainda que talvez eu tenha perdido alguns detalhes interessantes da trama, a história se desenrolou sem maiores problemas.

bussola_muncletroggburroNa idade, Muncle Trogg, o menor gigante do mundo, tem o equivalente a uns 10 anos. Mas é menor, inclusive, do que seu irmão mais novo. Seu tamanho é quase o de um Pequenote, como os gigantes que moram no Monte das Lamentações chamam os humanos que moram próximo à base da tal montanha. A inteligência dessas criaturas, porém, é inversamente proporcional a seu tamanho: eles têm algumas dificuldades em entender, além de outros assuntos, que o lugar em que moram é, na verdade, um vulcão que está dando sinais de que vai entrar em erupção.

Acontece que apenas Muncle, que é amigo de uma Pequenote chamada Emily (que já chegou a ser sequestrada por outro personagem no primeiro livro, e dada de presente à princesa Anã de Jardim), sabe que se quiser que seus familiares, amigos e o restante do povo do local não morram, todos os gigantes precisam deixar o Monte das Lamentações enquanto há tempo. Para isso, vão precisar voltar a montar nos dragões, outras criaturas míticas que no mundo dos gigantes são como cavalos.

Por ser diferente, Muncle sofre com um certo bullying de outros gigantes, e demora a ser reconhecido como Sábio Minúsculo, um alto (sem trocadilho) posto ao qual ele foi alçado depois de salvar os gigantes no primeiro título. Ainda assim, ele não se intimida e está decidido a proteger seu povo, mesmo que para isso precise usar do artifício do Burro Prodígio, uma criatura maravilhosa que voa e é dotada de máxima inteligência.

O inicio da trama, apesar das ilustrações bonitinhas de Steve Wells, tava meio chatinha, sabe? Talvez pelo fato de eu não ter um carinho pelos personagens vindo do primeiro livro. Mas quando as coisas começam a esquentar no vulcão, rola uma compaixão pelas criaturonas ingênuas que são os grandões. Mais do que isso, fiquei realmente curiosa pra saber o que acontecerá no próximo volume da série (“Muncle Trogg and the Great Dragon Flight”, que parece só ter saído em alemão por enquanto).

Dona Janet Foxley, a autora, sempre escreveu, mas só publicou sua história aos 60 anos, provando que não há idade para começar alguma coisa. :-)

Muncle Trogg e o Burro Voador
Janet Foxley
Intrínseca
208 páginas


O Oitavo Vilarejo

Quando fiquei sabendo sobre “O Oitavo Vilarejo”, um livro infanto-juvenil escrito por um autor brasileiro que aproveitava o folclore nacional como mote, fiquei animadíssima com a possibilidade de ver os personagens da nossa cultura popular em um ambiente fora das historinhas do Chico Bento. Mas, ao mesmo tempo, bateu um receio: um dos blurbs do livro dizia que se tratava do “Harry Potter tupiniquim”. A comparação (diga-se de passagem, bem sacada e verdadeira) era quase um rótulo, mas num primeiro momento me pareceu até meio pedante. Para a minha felicidade (e de todos os leitores), “A Odisseia de Tibor Lobato”, série criada por Gustavo Rosseb do qual esse é o primeiro título, é bacana, inteligente e traz para o palco histórias que toda criança feliz já ouviu alguém contar.

bussola_oitavovilarejoSei, o nome te lembrou o grande Seu Monteiro, né? Em comum com a obra de um dos primeiros autores de literatura para crianças no Brasil, Tibor também tem um relacionamento muito especial com a avó, que é dona de um sítio no interior. E uma certa facilidade de encontrar seres fantásticos pouco amistosos.

Tibor e sua irmã, Sátir, ficaram órfãos depois que seus pais morreram em um incêndio que consumiu o acampamento cigano em que moravam. Pela falta de documentos, os garotos ficaram dois anos em um orfanato antes que a avó, dona Gailde, os encontrasse. A trama do livro começa justamente com a chegada dos garotos aos Sete Vilarejos.

Não demora nada para que as crianças se adaptem à nova casa, assim como a todo o ambiente rural e à companhia da avó. Eles fazem um novo amigo, Rurique, filho da professora do povoado e com quem vão passar a ter aulas depois do período da Quaresma. Só depois da Quaresma? É… Porque coisas muito estranhas acontecem na região durante os 40 dias que vão da Quarta-Feira de Cinzas ao domingo anterior ao da Páscoa.

Tibor, Sátir e Rurique vão sentir na pele a verdade dessa crença da região. Um porquinho desgarrado, uma aventurazinha na casa de um senhor desaparecido… As coisas vão tomando um rumo instigante para o trio, mas não demora para que outras pessoas também sejam envolvidas, assim como para que o grupo descubra um evento que abalou as estruturas da área, quando diversas crianças foram levadas por entidades míticas poderosas.

Contar mais é estragar a surpresa de se deparar com uma série de “participações especiais” que surgem na trama e que farão o leitor ficar ávido pelos próximos títulos da história. “Desde o início, a ‘Odisseia de Tibor Lobato’ foi idealizada para 3 livros”, conta o simpático Gustavo Rosseb em uma conversa especial que você lê, na íntegra, aqui.

A Saga de Tibor Lobato – O Oitavo Vilarejo
Gustavo Rosseb
Jangada
224 páginas


Telonas e mais seres fantásticos do Brasil fazem parte do futuro de Tibor Lobato

“A Odisseia de Tibor Lobato” marca a estreia do paulistano Gustavo Rosseb como escritor. E que início ótimo, viu? Na entrevista que você lê a seguir ele conta um pouco sobre como decidiu colocar no papel a história do garotinho de sobrenome forte e os planos futuros que incluem até mesmo as telonas.

De onde surgiu a ideia de fazer o livro?
Muito tempo antes deste livro existir, eu escrevi uma outra história, de trama parecida. Também levava o título de Oitavo Vilarejo, mas conforme o tempo passava, eu ia desgostando do resultado adquirido. Pelo simples fato de trazer, E MUITO, personagens e lendas de folclores de outros países. Ao mesmo tempo, sempre fui fascinado pelo folclore brasileiro. Por aquelas histórias de assombração que seu primo conta à beira da fogueira do sítio da sua vó. Que fazem você perder o sono de verdade.

Fiquei pensando se não haveria uma forma de eu adaptar a trama àquele mundo que eu tanto apreciava. Sempre quis ler um livro que trouxesse esse tipo de medo e admiração ao folclore, numa literatura infanto juvenil nos moldes de Harry Potter e Percy Jackson. Mas nunca havia encontrado um livro que fosse dessa maneira. E assim, recomecei e escrevi A Odisseia de Tibor Lobato. Escrevi um livro que eu gostaria muito de ler.

É curioso pensar em um protagonista filho de ciganos. Não me lembro de nenhuma outra leitura que tenha incluído o povo. Você pretende abordar algum aspecto da vida deles?

Na verdade, eles não são efetivamente filhos de ciganos. Com o desenrolar da história dos outros livros, vamos compreendendo que eles passaram a viver com um agrupamento de ciganos por um motivo. Um agrupamento de ciganos não tem um endereço fixo, está sempre de mudança e esse é um fator que chamou a atenção da família de Tibor. Eles adequaram-se àquela vida.

E sim. pretendo sim explorar um pouco mais desse mundo ao longo dos próximos livros. Apenas em flashbacks, pra entender os motivos que os levaram a essa mudança drástica de vida e também o que de fato aconteceu na noite em que vieram a falecer.

As aventuras vão acontecer prioritariamente na Quaresma ou será possível acompanhar a vida dos protagonistas durante o restante do ano também?
Quando escrevo uma história, seja um livro ou um roteiro, procuro criar regras para aquele universo. Pra que ele, de certa forma, possa ser crível a quem o lê. Pra que, dentro dessas regras, eu possa ficar a vontade pra brincar com aquele universo de todas as maneiras possíveis. Para o universo do Tibor idealizei aventuras que se passassem apenas durante a quaresma de um ano. Portanto, suas sequências trarão os personagens a novas aventuras na quaresma do ano seguinte. Um ano provoca muita mudança. Essas mudanças estarão impregnadas nas personalidades de todos os envolvidos, no entorno deles e na profundidade da própria trama.

Você imaginou a trama se desenrolando em quantos títulos?
Desde o início, a Odisseia de Tibor Lobato foi idealizada para 3 livros. O segundo está em fase de revisão e o terceiro já era pra estar pronto, mas acabei por escrever um outro livro, sobre outro assunto no meio do caminho, hehehe. Mas começo a prepará-lo assim que terminar a revisão do segundo.

Veremos outros seres fantásticos brasileiros nas próximas aventuras? Quais?
Siiiim. Diversos outros seres fantásticos estarão no livro 2. Personagens conhecidos como o Boto e o Lobisomem e outros nem tanto como a Pisadeira e o Gorjala. Trago lendas novas também como a da Vitória Régia e a do Barba Ruiva. Além disso, nos aprofundamos mais nas lendas dos seres fantásticos já apresentados no Oitavo Vilarejo. E tem também mais contos de Dona Mirta. A continuação promete muito!!!! Estou apaixonado pela história. Só posso adiantar aqui que ele se chama A Odisseia de Tibor Lobato – A Guardiã de Muiraquitãs.

O livro vai se tornar um filme? Inclusive as histórias da dona Mirta?
O livro vai virar filme sim. A Parakino Filmes é a detentora dos direitos para levar o mundo do Tibor Lobato para as telonas e eu fui contratado como roteirista do filme! :) Ainda está bem no comecinho e essa parte é bem burocrática, mas muito importante pra que tudo corra bem. É só falar desse assunto que minha ansiedade me pega de jeito. hehe. Sobre a inclusão dos Contos de Dona Mirta no filme, ainda não sabemos. Na verdade, ainda é tudo muito secreto e isso é tudo o que me deixam dizer sobre o filme! Hehehe.


Dois livros sobre “coisas”

coisa-com-coisa-interna-pequena

Os livros “Coisa com Coisa” e “Coisas que não vejo da minha janela” têm, além da palavra “coisa” no título, alguns pontos em comum: 1) foram publicados pela mesma editora, a Mov Palavras; 2) São belos exercícios de criatividade que conseguem entreter (muito) o leitor.

coisas que não vejo da minha janela“Coisas que não vejo da minha janela” foi feito a quatro mãos pelos ilustradores itailianos Giovanna Zoboli e Guido Scarabottolo. As tais “coisas” listadas são, às vezes, concretas ( como, por exemplo,“sapatos fora de moda”), abstratas (“pensamentos escondidos”) ou absurdas (“narizes trancados”). A impressão é que estão desconectadas, que são ideias soltas, mas o que prende mesmo a atenção no livro é que cada situação é ilustrada de forma bastante criativa. Cada página traz uma proposta e um estilo de desenho, como uma com “cartões postais nunca enviados”, com selos e desenhos diferentes em cada cartão. Enfim, é um livro para ler ótimas ilustrações e viajar nas propostas do texto.

coisa com coisaJá “Coisa com Coisa” usa fotos de objetos para criar personagens e agrupá-los num cenário meio sem pé nem cabeça. Além de materiais de escritório, desses que quase todo mundo tem na gaveta (clips, fita crepe, etc), a designer brasileira Edith Derdyk  usa pincéis, alfinetes, ferramentas e etc para propor um exercício criativo para o leitor: juntar as situações dispostas no livro para elaborar sua própria história.

Uma das coisas mais divertidas é tentar dar um sentido aos pequenos “franksteins” com cabelos de linha, corpos de papelão e pernas de chaves de fenda. Em uma das páginas um alicate parece um dragão (pelo menos pareceu pra mim). O legal é ver que cada um pode ver cada homenzinho e outras coisas de um jeito. Pode ser um divertido exercício de criação de história para fazer sozinho ou com mais pessoas usando as páginas do livro, que tem um espaço próprio pro leitor escrever ou rabiscar o que quiser.

COISAS QUE NÃO VEJO DA MINHA JANELA
Autores:
Giovanna Zoboli e Guido Scarabottolo
Tradução: Eugênio Vinci de Moraes

COISA COM COISA
Autora:
Edith Derdyk
Indicado para crianças a partir de 5 anos.

 


Box especial -e lindo- de Harry Potter chega em setembro

Já estão em pré-venda (mas chegam às lojas físicas em 1º de setembro) os boxes especiais da editora Rocco com a coleção completa de sagas Harry Potter, Jogos Vorazes, Divergente, Legend e Eragon (ciclo A Herança).

A caixa Harry Potter – Série Completa é provavelmente a mais aguardada pelos fãs brasileiros (e a mais bonita também). E a espera valeu a pena: a edição traz os sete livros com projeto gráfico de Kazu Kibuishi (que também é autor da serie “Amulet”) com lombadas que, quando alinhadinhas, vão formar Hogwarts, e ilustrações de abertura de capítulo feitas por Mary GrandPré. Um sonho até para os trouxas.

Box-lombada-HP

box_jogosvoazes_legend

box_eragon_divergente


Resident Evil – Marhawa Desire

Makson Lima, convidado do Bússola de Livros, é um entusiasta de videogames, filmes e músicas estranhas. Mas, como ele mesmo diz, “quem sou eu para me considerar uma pessoa estranha?”

biohazard1Por Makson Lima

Originalmente lançado na revista japonesa Shonen Champion a partir de junho de 2012, “Resident Evil: Marhawa Desire” chegou por aqui pelo selo Panini Comics mais ou menos na mesma época, porém, com encadernação diferenciada. São ao todo cinco volumes, com número de páginas variando entre 160 e 180 e o estilo mangá de leitura, ou seja, de trás para frente, da direita para a esquerda e em preto e branco.

Admito não ser grande conhecedor de mangás – somo em meu currículo alguns arcos de “Os Cavaleiros do Zodíaco”, “Dragon Ball” (o original) e “Rurouni Kenshin” – mas sou grande fã da franquia de videogames “Resident Evil”. E como “Marhawa Desire” é considerado canônico dentro da cronologia da série, diria ser peça obrigatória na coleção de qualquer aficionado pelos mortos-vivos e aberrações genéticas da Capcom.

A história se desenvolve pouco tempo antes de “Resident Evil 6”, ou seja, em meados de junho de 2012. O mundo está à beira de uma pandemia zumbi e nosso herói, Chris Redfield, uma das autoridades de maior patente dentro da BSAA – Bioterrorism Security Assessment Alliance – é apresentado pela primeira vez ao lado de Piers Nivans, competente membro da frente estadunidense e personagem marcante de RE6.

Nota bastante pessoal: por algum motivo, associei “Marhawa” imediatamente a “Warszawa”, um de meus discos favoritos do cantor David Bowie. Ouvia as faixas conforme lia e a mistura foi bastante interessante, diria.

No mangá, desenhado pelo experiente fotógrafo Naoki Serizawa e com argumento da própria Capcom (sem detalhes quanto ao roteirista, mas suspeito ter sido Dai Sato, o mesmo de “RE Revelations”), “Marhawa” diz respeito ao maior e mais renomado colégio de toda Ásia. Isolado de mundo exterior e regido por educação católica, administrado por freiras, apenas filhos e filhas de pais extremamente abastados tem vez para estudar no complexo. A trama dispara quando o professor Douglas Wright, da Universidade Bennett, em Singapura, e especializado em BOWS – armas biológicas – é convocado por Madre Gracia, uma antiga namorada e também diretora do Colégio Marhawa, para examinar as origens de um estranho incidente.

Mas o professor Wright não haveria como antever a situação pandêmica na qual estava se metendo.

Uma das alunas fora transformada em zumbi por razões desconhecidas e encontrava-se acorrentada e isolada no porão da instituição. Em choque, Wright sugere a intervenção imediata dos membros da BSAA, pois é amigo de Chris Redfield e apenas um especialista com tal experiência saberia como lidar com a situação. Seu pedido, no entanto, é negado pela Madre Superiora e os problemas só pioram a partir daí. Com medo de manchar o nome da instituição fundada por seu pai, Gracia pretende lidar com a situação de forma resguardada e secreta – o pior caminho possível, nas palavras de Wright.

“Warhawa Desire” não foge muito de tudo aquilo que qualquer fã de Resident Evil está acostumado a presenciar na série de jogos. Novos personagens, como a militante Merah Biji e diversos alunos do campus, em especial a presidenta do conselho estudantil Bindi Bergara, se juntam ao maior herói da série até então, o experiente Chris Redfield. Piers Nivans, hoje já bastante conhecido pelos fãs, é introduzido aqui e suas semelhanças com o Chris do incidente de 98 nas montanhas Arklay são interessantes de serem notadas – sua mira é ultraprecisa, seu humor é leve e sua disposição, praticamente infinita, sempre focado na missão e em dar a vida pelos companheiros.

Além disso, a carnificina é alta e a recomendação da leitura para maiores de 14 anos não é à toa. São muitos e muitos quadrinhos de puro esquartejamento, brutais mesmo sem o uso de cores. Por esse motivo apenas, não senti um prolongamento desnecessário da história, cheia de altos e baixos, estes mais relacionados a certos personagens um tanto quanto intransigentes.

O sobrinho de Wright, Ricky Tozawa, acaba por ser o protagonista de grande parte da história, em especial em seu primeiro arco. Ricky acompanha o professor ao campus como seu assistente, mas seu comportamento infantilóide e irresponsável chega a irritar. Ironicamente, é ele quem vê a maior evolução dentro da trama, criando vínculos e amadurecendo perante situações de risco. O mesmo não pode ser dito das figuras encapuzadas que preenchem as sombras da instituição, grandes responsáveis pelos eventos catastróficos prestes a acontecer. “Resident Evil” nunca foi bom em esconder identidades, e o mesmo acontece aqui. As surpresas são antecipadas por qualquer fã mais ávido.

No entanto, “Marhawa Desire” é bastante consistente, tem momentos dramáticos e emocionantes, intercalados com absurdos digno de filmes B, coisa que a Capcom sabe muito bem como fazer. Por conta de uma encadernação diferenciada da original, nem todos os desfechos são assim tão instigantes, mas cito o da segunda edição como algo quase apoteótico, digno de figuração entre os grandes momentos da franquia. E sempre vale revisitar certas passagens por conta da riqueza de detalhes inseridos – os traços são bons, com cenários convincentes e toda aquela atenção especial depositada em seus monstros e criaturas. Dispensei o dobro do tempo com cada edição, pois fazia questão de sorver cada detalhe – e easter eggs significativos estão muito bem escondidos, vale a menção.

Posto tudo à mesa, recomendaria “Marhawa Desire” a um fã de Resident Evil, mas não o faria a qualquer outro leitor sem envolvimento com a série. De certo, há mangás, ou HQs, de uma forma geral, mais profundos e interessantes por aí.

Resident Evil – Marhawa Desire
Naoki Serizawa
Editora Panini
175 páginas


Magia de Sangue

Silla Kennicot não está tendo uma vida fácil desde que encontrou os corpos de seus pais envoltos em sangue em sua casa. Para a polícia, seu pai matou a mãe e, depois, se suicidou. A história parece absurda para a menina, que sempre acreditou no caráter do pai, um professor estudioso e amável com a família. Ryan, seu irmão mais velho, tenta lidar com a situação simplesmente seguindo em frente. Junto deles está Judy, segunda esposa do avô de Silla, que veio cuidar dos jovens ao saber o que havia ocorrido, ciente de que eles não tinham mais ninguém com quem contar.

bussola_magiadesangueMas as coisas mudaram desde que ela recebeu um embrulho contendo um livro antigo, aparentemente escrito à mão por seu pai. Em seu conteúdo, diversas receitas de como fazer magia. Magia boa, de regeneração, cura, transferir seu espírito para um animal por algum tempo, esse tipo de coisa. Todas elas têm um ingrediente em especial: sangue. E, parafraseando Luke Skywalker, o sangue parece ser forte na família dela.

Justo em sua primeira incursão pelo cemitério em que seus pais estão enterrados, onde ela revive uma folha morta, Silla é pega em flagrante por Nicholas Pardee, neto do vizinho falecido da casa dos Kennicot. O garoto acaba de se mudar para a casa com seu pai e a madrasta. O encontro é estranho, mas é o suficiente para fazer ambos se interessarem um pelo outro.

Enquanto o relacionamento dos dois se desdobra na escola, Nick vai fazendo uma espécie de terapia regressiva, em que lembra de algumas passagens de sua infância com sua mãe, uma pessoa que em algum momento surtou e sumiu.

Os capítulos do livro seguem mostrando, ora Silla como narradora, ora Nick. E, de vez em quando, mostrando capítulos de um diário, escrito com caligrafia rebuscada, inclusive, de alguém chamada Josephine Darly. E é juntando as peças dessa última personagem que a história se forma de fato.

“Magia de Sangue” é interessante e diferente, talvez por essa construção da trama. Há insights bem bacanas sobre as máscaras que todos usamos para cada etapa/área de nossas vidas, e achei isso realmente bacana como tópico para um livro de fantasia. Uma boa ideia para um fim de semana chuvoso e friozinho.

Magia de Sangue
Tessa Gratton
Rocco
446 páginas


Onde está o Wally? Em Hong Kong!

Cadê o Wally? Aparentemente, até 9 de agosto deste ano, você poderá encontrá-lo se estiver em Harbour City, o maior shopping de Hong Kong. “Happiness Hunt – Where’s Wally? Art Exhibition” vai homenagear a primeira passagem do rapaz magricela de blusa de listras vermelhas pela Ásia.

wally1

Claro que vai se tornar uma campanha de marketing, claro que vai haver itens à venda. Mas isso pouco vai importar para os sortudos que puderem tirar uma foto do lado de Wally.

wally2

Criado pelo artista e ilustrador inglês Martin Handford em 1987, Wally vendeu mais de 65 milhões de livros no mundo, tendo sido publicado em mais de 30 países.


A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert

bussola_harryquebertOutro que de infanto-juvenil não tem nada, “Harry Quebert” é daqueles livros que você não solta até a página final. O suspense da investigação que conduz a trama, e suas inúmeras reviravoltas, transforma a experiência de leitura em um passatempo excelente. Não que tudo seja perfeito, não é. Mas dá para entrar de cabeça no cenário da cidadezinha de Aurora, em New Hampshire, e só voltar de lá sabendo exatamente o que aconteceu naquele verão de 1975.

Trata-se de um livro dentro do livro. O narrador, Marcus Goldman é um autor que ainda não chegou aos 30 anos, mas já escreveu um best-seller logo em sua primeira incursão no mundo literário. Isso rendeu a ele fama, dinheiro, e um contrato milionário para um segundo romance, cuja data de entrega está quase chegando. Mas quem disse que ele teve uma ideia sobre o que abordar? Pensando em arejar a cabeça e de repente ter um lampejo genial, Marcus segue para a casa de seu antigo mentor e amigo, o tal Harry Quebert do título, em Aurora.

Quebert é um senhor solitário que escreveu “As Origens do Mal”, título super aclamado, anos atrás. Por conta disso, vêm dele as lições de como escrever um romance que abrem os capítulos da trama. Durante a estadia de Marcus, um serviço no jardim do escritor encontra ali os restos mortais de Nola Kellergan, de 15 anos, que sumiu em 1975 sem deixar vestígios. Não bastasse isso, o cadáver de Nola está abraçado ao manuscrito do livro de Quebert.

É claro que o primeiro suspeito do crime passa a ser o tiozinho, mas Marcus não acredita que ele possa ter sido capaz de fazer algo assim, ainda mais depois de o mentor lhe confessar que fora completamente apaixonado pela garota. Marcus passa então a fazer uma investigação por conta própria, em paralelo a da polícia, a fim de provar a inocência de Quebert. Não demora também para que ele perceba que toda a história possa ser o tema de seu livro, aquele mesmo para o qual ele não tem absoluta ideia nenhuma.

A partir daí, Marcus vai conhecendo de fato a cidadezinha e seus moradores, que não são –MAS É CLARO- aquilo que parecem. Muitas reviravoltas acontecem durante a trama mas, devo dizer, a minha preferida é uma que envolve checagem (e não estou dando spoiler nenhum dizendo apenas isso). É um momento lindo para mostrar a importância de se levar a sério a função de “produtor de conteúdo”, seja como autor, jornalista ou simplesmente espelho de reprodução de informações alheias em rede social. Genial.

Mas se é tão legal, porque tem um monte de crítica falando um monte do livro? Bom, como eu disse lá no começo, há problemas. Os diálogos flashback de Quebert e de Nola, mesmo que tenham acontecido há quase 40 anos, são de um excesso de açúcar de fazer diabético ter síncope só de ler. Rolam umas teorias existenciais também e, sério, dá vontade de dar FF nesses trechos, mas eles não são o livro, apenas parte dele. Outro fator que contribuiu pra má vontade de alguns resenhistas com a obra tem a ver com o fato de que o próprio Joël Dicker é um autor que chegou ao “estrelato” novinho. O suíço havia escrito 4 livros rejeitados por editoras antes de “Les Derniers Jours de Nos Pères”, que ganhou o prêmio de escritores de Genebra e, apesar de não ter vendido bem como “Quebert”, fez com que seu nome ficasse no radar das empresas. Talvez as pessoas esperem que sempre que alguém ganha um concurso assim, seus próximos livros tenham de ser soberbos, imersivos ou qualquer outro rótulo que passe longe de literatura policial. Nunca vou entender esse ódio de caboclo tão arraigado.

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert
Joël Dicker
Intrínseca
574 páginas


#Snicket Tour

Sua cidade tem mistérios indescritíveis e insolúveis? Talvez Lemony Snicket possa ajudar a solucioná-los.

Está – infelizmente – valendo só nos Estados Unidos um concurso para levar o grande Lemony Snicket (autor de diversos livros juvenis como a saga “Desventuras em série”) até uma cidade em que seus conhecimentos possam ser úteis. Infelizmente, parece que ninguém de Manchado pelo Mar estará com ele durante a palestra.

snicketinyourtown_500

A ideia é parte da campanha de divulgação do último livro da recente saga “Só Perguntas Erradas” (sobre os dois primeiros devo fazer resenha logo mais, são sensacionais). “Why is this night different from all other nights?” deve chegar às prateleiras das lojas em 29 de setembro deste ano.