Resident Evil – Marhawa Desire

Makson Lima, convidado do Bússola de Livros, é um entusiasta de videogames, filmes e músicas estranhas. Mas, como ele mesmo diz, “quem sou eu para me considerar uma pessoa estranha?”

biohazard1Por Makson Lima

Originalmente lançado na revista japonesa Shonen Champion a partir de junho de 2012, “Resident Evil: Marhawa Desire” chegou por aqui pelo selo Panini Comics mais ou menos na mesma época, porém, com encadernação diferenciada. São ao todo cinco volumes, com número de páginas variando entre 160 e 180 e o estilo mangá de leitura, ou seja, de trás para frente, da direita para a esquerda e em preto e branco.

Admito não ser grande conhecedor de mangás – somo em meu currículo alguns arcos de “Os Cavaleiros do Zodíaco”, “Dragon Ball” (o original) e “Rurouni Kenshin” – mas sou grande fã da franquia de videogames “Resident Evil”. E como “Marhawa Desire” é considerado canônico dentro da cronologia da série, diria ser peça obrigatória na coleção de qualquer aficionado pelos mortos-vivos e aberrações genéticas da Capcom.

A história se desenvolve pouco tempo antes de “Resident Evil 6”, ou seja, em meados de junho de 2012. O mundo está à beira de uma pandemia zumbi e nosso herói, Chris Redfield, uma das autoridades de maior patente dentro da BSAA – Bioterrorism Security Assessment Alliance – é apresentado pela primeira vez ao lado de Piers Nivans, competente membro da frente estadunidense e personagem marcante de RE6.

Nota bastante pessoal: por algum motivo, associei “Marhawa” imediatamente a “Warszawa”, um de meus discos favoritos do cantor David Bowie. Ouvia as faixas conforme lia e a mistura foi bastante interessante, diria.

No mangá, desenhado pelo experiente fotógrafo Naoki Serizawa e com argumento da própria Capcom (sem detalhes quanto ao roteirista, mas suspeito ter sido Dai Sato, o mesmo de “RE Revelations”), “Marhawa” diz respeito ao maior e mais renomado colégio de toda Ásia. Isolado de mundo exterior e regido por educação católica, administrado por freiras, apenas filhos e filhas de pais extremamente abastados tem vez para estudar no complexo. A trama dispara quando o professor Douglas Wright, da Universidade Bennett, em Singapura, e especializado em BOWS – armas biológicas – é convocado por Madre Gracia, uma antiga namorada e também diretora do Colégio Marhawa, para examinar as origens de um estranho incidente.

Mas o professor Wright não haveria como antever a situação pandêmica na qual estava se metendo.

Uma das alunas fora transformada em zumbi por razões desconhecidas e encontrava-se acorrentada e isolada no porão da instituição. Em choque, Wright sugere a intervenção imediata dos membros da BSAA, pois é amigo de Chris Redfield e apenas um especialista com tal experiência saberia como lidar com a situação. Seu pedido, no entanto, é negado pela Madre Superiora e os problemas só pioram a partir daí. Com medo de manchar o nome da instituição fundada por seu pai, Gracia pretende lidar com a situação de forma resguardada e secreta – o pior caminho possível, nas palavras de Wright.

“Warhawa Desire” não foge muito de tudo aquilo que qualquer fã de Resident Evil está acostumado a presenciar na série de jogos. Novos personagens, como a militante Merah Biji e diversos alunos do campus, em especial a presidenta do conselho estudantil Bindi Bergara, se juntam ao maior herói da série até então, o experiente Chris Redfield. Piers Nivans, hoje já bastante conhecido pelos fãs, é introduzido aqui e suas semelhanças com o Chris do incidente de 98 nas montanhas Arklay são interessantes de serem notadas – sua mira é ultraprecisa, seu humor é leve e sua disposição, praticamente infinita, sempre focado na missão e em dar a vida pelos companheiros.

Além disso, a carnificina é alta e a recomendação da leitura para maiores de 14 anos não é à toa. São muitos e muitos quadrinhos de puro esquartejamento, brutais mesmo sem o uso de cores. Por esse motivo apenas, não senti um prolongamento desnecessário da história, cheia de altos e baixos, estes mais relacionados a certos personagens um tanto quanto intransigentes.

O sobrinho de Wright, Ricky Tozawa, acaba por ser o protagonista de grande parte da história, em especial em seu primeiro arco. Ricky acompanha o professor ao campus como seu assistente, mas seu comportamento infantilóide e irresponsável chega a irritar. Ironicamente, é ele quem vê a maior evolução dentro da trama, criando vínculos e amadurecendo perante situações de risco. O mesmo não pode ser dito das figuras encapuzadas que preenchem as sombras da instituição, grandes responsáveis pelos eventos catastróficos prestes a acontecer. “Resident Evil” nunca foi bom em esconder identidades, e o mesmo acontece aqui. As surpresas são antecipadas por qualquer fã mais ávido.

No entanto, “Marhawa Desire” é bastante consistente, tem momentos dramáticos e emocionantes, intercalados com absurdos digno de filmes B, coisa que a Capcom sabe muito bem como fazer. Por conta de uma encadernação diferenciada da original, nem todos os desfechos são assim tão instigantes, mas cito o da segunda edição como algo quase apoteótico, digno de figuração entre os grandes momentos da franquia. E sempre vale revisitar certas passagens por conta da riqueza de detalhes inseridos – os traços são bons, com cenários convincentes e toda aquela atenção especial depositada em seus monstros e criaturas. Dispensei o dobro do tempo com cada edição, pois fazia questão de sorver cada detalhe – e easter eggs significativos estão muito bem escondidos, vale a menção.

Posto tudo à mesa, recomendaria “Marhawa Desire” a um fã de Resident Evil, mas não o faria a qualquer outro leitor sem envolvimento com a série. De certo, há mangás, ou HQs, de uma forma geral, mais profundos e interessantes por aí.

Resident Evil – Marhawa Desire
Naoki Serizawa
Editora Panini
175 páginas

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