O Misterioso Lar Cavendish

Belleville é um lugar estranho. Estranho mesmo. Tudo é muito perfeitinho, mas não de um jeito funcional. As coisas soam falsas, com ruas limpas demais, jardins bem cuidados demais, pessoas sorrindo demais. É nesta realidade distorcida que vive Victoria Wright, garotinha que tenta, o tempo todo, ser a melhor em tudo o que faz, seja em que área da vida for.

bussola_larcavendishSeu único amigo é Lawrence Prewitt, garoto meio desleixado e com um talento fenomenal para a música. Na verdade, Victoria se aproximou do menino com a ideia de que sua companhia CERTAMENTE iria melhorar a existência dele, pois ela estaria ali para falar que sua camisa estava fora da calça, ou que seu cabelo estava despenteado, e por aí vai. Sim, a protagonista acredita de verdade que há muitos “certos” e “errados” na forma como as pessoas levam a vida.

Acontece, porém, que a garota começa a notar que algumas crianças mais “diferentes” da escola, como o menino que come sem nenhum controle, ou a garota que faz pinturas abstratas na aula de artes, não aparecem nas aulas há algum tempo. Não demora para que o próprio Lawrence também suma – segundo os pais do menino, ele foi visitar a avó, mas Victoria percebe que há algo muito estranho acontecendo. Na verdade, os próprios sr. e sra. Prewitt estão bem diferentes do que costumam ser – parece que eles andam sorrindo demais, e Victoria tem certeza de ter visto os mesmos besouros feiosos que têm aparecido aos montes na cidade andando dentro da casa deles.

A misteriosa casa de órfãos Cavendish, que existe há anos na cidade, teria algo a ver com tudo isso? É o que a protagonista resolve investigar quando conhece o esquisitíssimo sr. Alice, jardineiro e faz-tudo do local, que também comenta com ela o quanto a sra. Cavendish, dona do Lar, a acha parecida consigo própria.

Situações cada vez mais esquisitas começam a acontecer na cidade, mas é quando Victoria efetivamente entra no Lar que o pesadelo toma forma, de um jeito bem interessante para um livro infanto-juvenil. Sempre acho louvável títulos que colocam situações mais drásticas (ainda que fantasiosas) para que o leitor lide com elas enquanto está mergulhado na história. Algumas ideias, talvez difíceis para o entendimento de um leitor menos maduro, também ganham detalhes “visuais” muito interessantes (fios e tesouras têm a ver com isso).

Curioso que quando li a contracapa e mesmo algumas outras resenhas, antes da leitura efetiva do livro, a história parecia ser focada no poder da amizade de Victoria e Lawrence. Mas, na verdade, pra mim, apesar da óbvia importância da relação da dupla, o Lar Cavendish tem muito mais a ver com aceitar as pessoas como elas são, e com não se dobrar às convenções sociais, do que com qualquer outra coisa. Você é fantástico do jeito que é, sabe? Não deixe que ninguém te diga o contrário.

A ideia de perfeição falsa fica bem clara nas descrições da autora, de quem o Lar é o primeiro livro (que inclusive ganhou o prêmio de Melhor Livro Infantil da Biblioteca Pública de Nova York em 2012). Assim como o desconforto a cada novo besouro que aparece desenhado pelas páginas da trama. Mas posso ser sincera? Me identifiquei muito com a descrição de aperto no peito que (acho eu) filhos únicos sabem exatamente como é quando você percebe que desapontou alguém.

O Misterioso Lar Cavendish
Claire Legrand
264 páginas
Gutenberg

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