O Dia do Curinga

bussola_odiadocuringaSinceramente não sei se considero os livros do Jostein Gaarder como infanto-juvenis. Apesar de as histórias serem protagonizadas por crianças, normalmente a linha de reflexão que ele impõe à trama é tão abrangente que duvido que um público mais velho não se sinta também envolvido.

Hans-Thomas é um garoto de 12 anos que viaja com o pai, de carro, da Noruega, onde moram, até a Grécia. A missão da viagem é conseguir trazer de volta a mãe do menino, que deixou a família oito anos antes. Ela queria se encontrar e por isso largou para trás a criança e o marido, um marinheiro com certa propensão a beber demais.

A questão é que a aventura da mãe deveria ter durado apenas algum tempo, mas com o passar dos meses e depois dos anos, o contato se perdeu (apesar de não haver data na história, trata-se de uma época muito antes da internet). É quando uma parente traz, de uma viagem, uma revista de moda de Creta (com a mãe em destaque na capa), que ambos percebem que podem sim tentar reencontrá-la.

A longa viagem de carro é sempre entremeada por várias discussões filosóficas, mas extremamente tangíveis para o garoto. Muitas paradas em cidades distantes vão preparando os dois personagens para um possível reencontro com a mulher que ambos amam, mas que os fez sofrer.

É numa dessas paradas que Hans conhece um padeiro que, junto de um pão doce, lhe dá de presente um livrinho minúsculo, onde garante haver uma história muito interessante. O garoto havia ganhado, pouco tempo antes, uma lupa, e o acessório se torna fundamental para a leitura.

A partir daí, os capítulos vão se dividindo entre a viagem de Hans-Thomas e a trama do pequeno livrinho, que conta uma história dentro da história sobre uma ilha no oceano Atlântico em que a solidão de um náufrago o fez dar vida a seres inimagináveis. E, de uma forma tocante, tudo se encaixa na vida do garoto.

Ilusões de infância, perguntas sem resposta, filosofia, autoconhecimento… tudo se mistura nos capítulos, cujos nomes correspondem às cartas de baralho.

Tenho de ser sincera: várias vezes fui e voltei do trecho em que estava para me lembrar dos nomes de todos os que passaram pela ilha e pela cidade, mas a dedicação valeu muito a pena! Leitura densa e recomendadíssima.

 

O Dia do Curinga
Jostein Gaarder
340 páginas (na versão de bolso)
Companhia das Letras

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