Os Portões

Não sei qual o melhor dos complementos para o título de John Connoly: “Um romance estranho para jovens estranhos” ou “… do Inferno estão prestes a se abrir – cuidado com o vão”. Sério, como não se apaixonar de cara por um livro que faz referência ao “mind the gap” do metrô de Londres? Foi o que aconteceu comigo e, acredite, da compra na Livraria Cultura até o final da leitura, só melhorou. E já estou desesperada pra encontrar as outras obras do autor, que continuam a saga do garoto Samuel Johnson e de seu cão, Boswell.

bussola_ portõesdoinfernoO protagonista tem 11 anos e é um pouco diferente de seus colegas da escola. Samuel levanta questões que ninguém nunca pensou (e que adulto nenhum tem como responder), prefere ser inovador do que fazer as coisas conforme os outros fazem e tem um senso de realidade no mínimo inusitado. É justamente quando está fazendo algo diferente  – ir pedir doces de Halloween no dia 28 de outubro, três dias antes da data em que as crianças fazem isso – que bate na casa de vizinhos recém-chegados, os Albernathy, e descobre, acidentalmente que o casal, junto dos Renfield, está fazendo uma cerimônia no porão com a intenção de abrir os portões do inferno. É, uma coisa bobinha, só pra matar o tédio mesmo.

Os envolvidos (eles sim gente esquisita, tenha dó) não acreditam que aquilo vá de verdade funcionar, mas eis que a coisa rola, pois acontece simultaneamente com uma liberação de partícula no Grande Colisor de Hádrons, no CERN (que, momento orgulho nerd, eu já tive o prazer de visitar). Pronto. Agora uma entidade responsável pela preparação do ambiente para a volta do Grande Malevolente se apossa do corpo da senhora Albernathy e aproveita o corpo dos outros três presentes para trazer mais alguns demônios para a Terra, enquanto todos se preparam para “alargar” a fresta do portão que começou a se abrir.

Só que Samuel e Boswell, seu fiel companheiro, viram tudo de uma janelinha. Agora, depende dele fazer os adultos, que nunca o levaram muito a sério, a acreditar que correm perigo e que só há uma chance de acabar com o problema: fechar os portões até antes da noite do dia 31 de outubro.

Ao mesmo tempo, em outro canto do inferno – acredite, o lugar é imenso -, Nurd, o Flagelo de Cinco Deidades, um demônio mais inofensivo, porém sentenciado a viver recluso com seu criado, Absinto, num lugar ermo e feio, por alguma incongruência do destino é vítima de uma espécie de bug pela abertura dos portões e é “sugado” para a Terra por alguns minutos. Depois de ser atropelado, chutado e afins, ele acaba esbarrando com Samuel e mostra que nem todos os demônios são horrendos e maus e aquela coisa toda. A tropa vinda para receber o Grande Malevolente, porém, é capaz de qualquer coisa e fará o que for preciso para que o protagonista, seus amigos Maria e Tom, e quem mais se coloque no caminho, não impeçam a chegada do mal maior.

Samuel é tão doce, amável, e ao mesmo tempo deixa os adultos tão absolutamente sem palavras com suas dúvidas e deduções que é impossível não simpatizar com ele. E seu cão, que parece ter sempre um latido ou um “gesto com patas” para complementar as situações, não fica atrás.

Divertidíssimo e inspirando o nerd que há dentro de algumas crianças com uma série de sensacionais notas de rodapé explicando conceitos de ciência e dando referências, o título é excelente. As citações a outros símbolos do terror – a casa dos Albernathy fica no número 666; a cidade de Biddlecombe tem lugarejos como o Arvoredo Lovecraft e por aí vai – também são de encher os olhos. Não sei se os outros dois livros que o autor já escreveu para a saga de Samuel (“Hells Bells” e “The Creeps”) virão para o Brasil, mas se torcida conta, estamos aí.

 

Os Portões
John Connolly
304 páginas
Bertrand Brasil

 

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