“Desenhar é intuitivo”, diz a ilustradora Catarina Sobral

Recentemente, fiz uma resenha sobre os livros “Achimpa” e “Greve”, já publicada na Folhinha e, posteriormente, neste blog. A novidade é que eu tinha uma entrevista com a autora, que acabou ficando na gaveta. Até este exato momento… Para quem não viu, a resenha dos livros está no ar aqui e no site da Folha de S. Paulo.

Catarina Sobral, autora e ilustradora (Foto: Reprodução/ http://www.portugalbologna2012.com/Catarina-Sobral)

Catarina Sobral, autora e ilustradora (Foto: Reprodução/ http://www.portugalbologna2012.com/Catarina-Sobral)

A autora e ilustradora portuguesa Catarina Sobral usa a gramática como inspiração para inventar histórias. Em “Achimpa”, seus personagens entram em polvorosa quando um investigador descobre uma palavra esquecida. Todo mundo só quer saber como usá-la – é um verbo, um adjetivo ou um substantivo? Já em “Greve” (ambos publicados pela Martins Fontes), os pontos param de trabalhar, dificultando a escrita (não dá nem para terminar frases sem o ponto-final) e atividades de todo tipo – culinária, esporte, matemática. O pontos, destaca o livro, são mais importantes do que se imagina…

Direto de Lisboa, em Portugal, Catarina fala sobre a inspiração para criar as histórias – incluindo as ilustrações. Neste ano, ela recebeu o Prêmio Internacional de Ilustração da prestigiada Feira do Livro Infantil de Bolonha pelo livro “O Meu Avô”. Vale mencionar ainda que “Achimpa” foi premiado como melhor livro infanto-juvenil pela Sociedade Portuguesa de Autores em 2013. Saiba mais sobre o trabalho da autora e veja suas dicas preciosas de livros infantis na entrevista abaixo, concedida por email.

Tanto “Greve” como “Achimpa” brincam com palavras. Você gostava de gramática quando estava na escola? Por que o assunto chama a sua atenção?
Sim, sempre gostei muito de gramática, de etimologia, dos usos idiomáticos da língua e de jogos de linguagem. Também gosto de Raymond Queneau (poeta e escritor francês), de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e outros poetas concretos.

Ilustração de "Achimpa" (Divulgação)

Ilustração de “Achimpa” (Divulgação)

Por que você escolheu a palavra “Achimpa” como uma palavra inventada?
Quando já tinha a história, mas ainda me faltava a palavra, perguntei à minha avó se ela se lembrava de alguma palavra antiga que tivesse caído em desuso. Uma delas não encontrei no dicionário: “achinço”. Como tinha de acabar em “a”, eu só precisava escolher uma consoante. Percorri o alfabeto e a que mais gostei de ouvir foi o “p”. Alguns dos desenhos de “Achimpa” paracem feitos de giz de cera.

Que técnicas e materiais você usou no livro?
Usei tinta a óleo, pastéis de cera e lápis.

Em “Greve” você usa colagens. Como você escolhe o tipo de figura que vai usar?
Cada vez que eu abordo um texto, mesmo que seja meu, sinto que tenho o dever de traduzir o tom único desse texto por meio da ilustração. E esse é um processo muito demorado e muito frustrante, porque tenho de descobrir uma forma de expressão que ainda não existe, que nunca fiz antes, e que também é minha. “Greve” tinha de ser proletário,
sindicalista, com referências aos cartazes construtivistas, à arte degenerada e ao design gráfico do século passado. Por isso tentei buscar referências nas vanguardas russas, entre outras, onde predomina o preto e o vermelho, para construir as minhas imagens.

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Ilustração de “Greve” (Divulgação)

Quando e por que você sentiu vontade de escrever e ilustrar seus livros?
Eu nunca senti necessidade de escrever livros, mas de fazer livros de imagens. Gosto muito de ser ilustradora para a imprensa, mas gosto muito mais de fazer livros ilustrados.

O que você faz primeiro: escreve ou desenha?
Geralmente escrevo primeiro, porque me ajuda a estruturar a ideia. Mas muitas vezes já estou pensando na ilustração quando escrevo, uma vez que parte do significado está na imagem.

Quais são seus passatempos preferidos quando não está desenhando ou escrevendo?
Ler. Sobretudo ler. E dançar.

Quais livros ilustrados legais você indica para um pequeno leitor?
Depende da idade, mas aqui vão alguns do meus preferidos: “Pequeno Azul e Pequeno Amarelo”, do Leo Lionni; “Alors ?”, da Kitty Crowther; “Onde Vivem os Montros”, do Maurice Sendak; “Petites Météorologies ” (Pequena Estação Metereológica, em tradução livre), da Anne Herbauts; “Um Livro para Todos os Dias” da Isabel Minhós Martins e do Bernardo Carvalho; “L’altalena” (Balanço, em tradução livre), do Enzo Mari.

Desde que idade você gosta de desenhar?
Desde sempre, como qualquer criança. Desenhar é intuitivo, vem antes da expressão escrita e não requer aprendizagem. Depois aprende-se a ler e muitas vezes para-se de desenhar (embora nunca se pare de escrever). Eu simplesmente não parei de desenhar.

Que parte é mais legal na sua vida de autora e ilustradora?
Criar. Pensar num objeto que ainda não existe e fazê-lo. Um objeto que pode ser lido e interpretado de inúmeras formas, ser desdobrado numa exposição, numa atividade entre pais e filhos, num jogo, que pode ensinar ou inspirar alguém (ou fazer rir) e transformar essa ideia em realidade.

O-meu-avôO que é preciso para se tornar uma boa ilustradora?
Ler muitos livros de imagens (ler as mensagens visuais dos livros de imagens) e perceber a linguagem específica do formato. Deixar espaço para a imaginação do leitor, criar imagens que não sejam redundantes em relação ao texto, nem restritivas ou estereotipadas, mas sim abertas a interpretação. E, claro, como dizia o [Samuel] Beckett (escritor e dramaturgo irlandês), experimentar, errar, voltar a tentar, errar melhor.

Recentemente, você ganhou um prêmio importante em Bolonha com o livro “O Meu Avô”. Como recebeu a notícia?
Com muita surpresa. Representa um enorme reconhecimento da qualidade do nosso trabalho e isso me dá mais confiança e mais vontade de trabalhar.

Leia mais:

– Outros trabalhos da Catarina Sobral no site oficial da autora.

 

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