Dois curtas de animação indicados ao Oscar

Nos últimos tempos, tem batido uma curiosidade extra de assistir curtas de animação. Com o Oscar dando as caras logo no início deste ano, já incluí os indicados no meu roteiro de filmes. Por enquanto, só encontrei duas das animações curtinhas disponíveis. Falo um pouco das experiências abaixo.

roomRoom on the Broom
O filme dá toda a pinta de ser uma adaptação de livro — o narrador aparece vez ou outra pra amarrar a trama com versos. A história, pelo que vi, é uma criação de Julia Dohaldson, escritora popular e premiada do Reino Unido, e do ilustrador Axel Scheffeler. Já o filme é dirigido por Max Lang e Jan Lachauer (pretendo testar também um app deste mesmo título em breve).

A animação é uma graça e os personagens parecem brinquedos que se mexem em florestas bem caprichadas. Embora esteja em inglês, dá para entender perfeitamente o que se passa sem falar a língua, pois boa parte das ações não têm diálogos. Aliás, a história deve agradar principalmente crianças, por ter uma série de repetições que vão ganhar importância no clímax, quando a bruxa passa por apuros.

Em outras palavras, a história mostra um passeio de uma bruxa e de seu gato. Ambos levantam voo na vassoura e seguem pelos ares. Mas a risonha senhora de cabelos vermelhos e nariz avantajado perde objetos ao longo do caminho. E em cada uma das paradas para recuperar os objetos, eles fazem um novo amigo (quer dizer, ela faz um amigo, pois o gato não faz muita questão de agregar ninguém à dupla). Nesse meio tempo, nós, espectadores, sabemos que há uma ameaça se aproximando. Embora a bruxa tenha ganhado contornos simpáticos (ela parece até uma fada, com tanta simpatia), os autores mantiveram a histórica fama de mau dos dragões… Na trama, um dragão amedrontador alimenta-se de bruxas e está louco para capturá-la. E se aproxima dela, criando uma certa tensão.

Como eu disse, a história deve agradar mais aos pequenos. E tem uma mensagem edificante de como é bom fazer amigos (uma vez em apuros, você pode precisar deles) e que diz um pouco sobre o título que, em tradução livre, fica algo como “Um espaço na vassoura” (melhor não explicar muito pra não estragar surpresas). Abaixo, tem o trailer em inglês (dá pra baixar o curta online — fica a dica) e, quem quiser, dá pra ver o site oficial aqui.

Feralferal

Este é um filme, digamos, mais complexo e que deve agradar crianças mais velhas e adultos. A direção é de Daniel Sousa. Pensei que Daniel tivesse origem brasileira, mas quase… Ele tem origem cabo-verdiana e morou um tempo em Portugal. Atualmente vive nos EUA. A trama de “Feral” tem um tom mais dark do que a de “Room on the Broom”.

Tenho achado bem legal ver animações com ilustrações tão bonitas e pouco óbvias explorando assuntos mais sombrios — recentemente até citei “Birdboy”, do espanhol Alberto Vázquez. Assim como em “Birdboy”, “Feral” tem como protagonista um garoto solitário. Essas são as semelhanças, mas os filmes são bem diferentes.

O curta indicado ao Oscar trata de um garoto que pensa ser um animal selvagem. Logo no início, parece que ele se identifica com lobos, inclusive. Não, não há nada do Mogli da Disney ali. E nem parece que os lobos se identificam com ele. O garoto está ali sozinho, com seus dentes pequenos e afiados, prestes a ser devorado, até que chega um homem, possivelmente um caçador, armado. Este homem de dorso largo e cabeça pequena salva o menino e, após doma-lo, o leva para a cidade. Vemos os cabelos da criança serem cortados e uma gravata ser colocada no seu pescoço, símbolo de sua “domesticação”. Ou, ao menos, uma tentativa de que isso ocorra.

O caçador, como um pai, leva o garoto à escola. Cercado por um bando de crianças que apontam para ele e dão risada, o protagonista parece se sentir mais acuado do que quando estava à frente dos lobos… O filme mostra a tentativa de incluir esse garoto no mundo urbano, social, mesmo sem ele dar demonstrações de que sabe ser um humano e não uma fera. Em uma entrevista de Daniel Sousa ao site português Público, vi que uma das histórias que inspiraram os autores foi a de Victor Aveyron, que vivia na floresta até ser adotado pelo médico psiquiatra Jean Marc Gaspard. A integração deste caso, que foi real, não teve muito sucesso…

Vale dizer também que o visual do filme é bem interessante. Ao mostrar as figuras dos personagens, o autor deu prioridade às bocas e dentes, tanto dos bichos quanto das pessoas. Os olhos mal aparecem. As cores acinzentadas também dão uma dimensão sombria e reforçam o suspense sobre o protagonista, se ele vai ou não virar um bom menino — ou, ao menos, um menino comum. Para descrever as técnicas usadas, o próprio Daniel diz que usou um processo um pouco confuso, misturando computador e desenhos à mão feitos no programa Flash. Depois, contou o artista, imprimiu o desenho em papel, tracejou a lápis e devolveu ao computador.

Bom, para assistir este filme é mais fácil, pois está disponível do vímeo. Só é preciso pagar U$ 1 para assistir.

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