A Fabulosa Morte do Professor de Português

Como filha e sobrinha de professores de português, senti um dever quase que cívico de ler esse livro quando ele caiu nas minhas mãos. Afinal, sei desde cedo que alunos podem ser muito cruéis com as pessoas que tentam ensiná-los a se expressar corretamente (algo que provavelmente eles só se darão conta quando forem ridicularizados no Facebook com alguma frase ininteligível). Rancores a parte, o texto de Lourenço Cazarré é uma delícia e flui rápido entre uma risada e outra, provando, para o desgosto do professor Severino Severo (o tal mestre do título), que leitura não tem de ser chata e maçante.

O livro é narrado por Mariana, uma estudante adolescente que, junto de Teodoro (ou Tédio, como é conhecido) é convocada para trabalhar como repórter do jornal da escola na noite de inauguração da livraria Esquina das Palavras. O que teria tudo para ser um evento banal, apenas reunindo figurões da cidade, se torna praticamente uma encenação de livro de Agatha Christie, com quase todos os personagens lembrando algo que Severo já os fez passar (seja na condição de um dos professores mais velhos na profissão ou na de crítico literário da localidade).

Para deixar o ambiente mais leve, Laurentino, o dono da livraria – e criatura hilária, que se “engana” com os valores dos livros, cobrando sempre a mais – propõe uma espécie de caça ao tesouro por uma edição rara de “Vidas Secas”, com dedicatória de Graciliano Ramos para Guimarães Rosa, escondida nas estantes da sobreloja. Ninguém encontra a obra, mas todos prometem estar de volta ao estabelecimento algumas horas depois, quando vai acontecer um café da manhã especial.

Ao abrir a loja no dia seguinte, o dono da Esquina das Palavras descobre um corpo soterrado em centenas de livros. Pelo tamanho, os convidados deduzem se tratar de Severo, e passam a rememorar os acontecimentos da noite anterior com o interrogatório do delegado Túlio Trúcido e de seus assistentes, Pitibul e Rotiváiler. Todo mundo é suspeito.

Ainda que a trama possa ser mais indicada para leitores mais novos (com uns 8 anos já é possível aproveitar bem o texto), os jogos de palavras, os trocadilhos, as citações literárias e a personalidade de Severo valem o tempo dos mais velhos também. As ilustrações de Negreiros deixam a leitura ainda mais divertida.

 

A Fabulosa Morte do Professor de Português
Lourenço Cazarré, com ilustrações de Negreiros
Autêntica
112 páginas

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