Clássico: A Bolsa Amarela

* Ana Clara Ferrari, convidada do Bússola de Livros, é jornalista e fã do clássico de Lygia Bojunga Nunes. 

Estava lá. Bem antes do que você imaginava. Muito antes, aliás. Enquanto você, até então, calculava que a sua formação político-ideológica tinha se iniciado em algum período difuso da adolescência com professores maneiros de geografia e história, você descobre que começou bem antes. Releitura de livro infantil dá nisto. No meu caso, foi com “A Bolsa Amarela”, da Lygia Bojunga.

Nunca tinha feito isso com literatura da infância, no máximo, com alguns clássicos da adolescência como série Vagalume e títulos de vestibular. É diferente e fascinante – a situação e o livro. Que a história é fantástica não foi surpresa. Era o meu favorito, lido repetidas e incansáveis vezes. Surpreendente foi descobrir como plantar uma semente no intelecto e fazê-la germinar. Filósofos e jornalistas, morram com essa: livro infantil exige muito poder de verve e síntese. Mais do que parece. E “A Bolsa Amarela” é o clássico exemplo disso.

Uma garota, Raquel, resolve esconder três grandes vontades – a de crescer, a de ser garoto e a de ser escritora – em uma grande bolsa amarela. A partir desse enredo e a criação de amigos secretos e objetos que povoam o interior da bolsa, a autora traça um caminho de aprendizado de “autonomia intelectual” infantil que é, praticamente, um serviço de utilidade pública. É possível constatar várias “sementes” da criação dessa autonomia sob muitos aspectos – relação interpessoal, familiar, criação de valores, gerenciamento de conflitos, etc – que, óbvio, não se completam totalmente por esbarrar na faixa etária do leitor, mas são imprescindíveis para criar as bases e se desenvolverem ao longo do período seguinte, no caso, a adolescência.

Não porventura, uma dessas vontades já esbarra naquilo que a garota terá que enfrentar ao longo da vida: a relação de gênero.

— Por que? Ela não gostava de ser bonitinha?
– Gostava. Mas ela achava que ser bonitinha só era muito pouco: se de repente ela desbotasse, ela deixava de ser bonitinha; aí ela não ia servir pra mais nada, porque a única coisa que ela era, ela deixava de ser. Tá entendendo como é que é?

Entretanto, a história “dentro da história” mais importante é do Galo Terrível, um dos amigos secretos que morou na bolsa. Ele teve o pensamento literalmente costurado com uma Linha Forte para se comportar da maneira que os outros achavam ser conveniente: um galo de briga. E durante uns dois ou três capítulos brilhantes, Raquel conta as aventuras de Terrível para romper com a estreiteza de raciocínio e ser feliz. É uma aula introdutória para detectar ideologias “impostas” e pré-dispostas e, claro, combatê-las. Por essas e outras, “A Bolsa Amarela” é, na verdade, o Zé Gotinha da Red Pill. Se fosse vermelha seria óbvio demais. Só por isso.

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