Rebeca Luciani: “Qualquer momento é bom para desenhar”

Ilustrações do livro "Cachtánca" (Rebeca Luciani/ Divulgação)

Desenhar todos os dias é essencial para quem quer se tornar um ilustrador, recomenda Rebeca Luciani. A desenhista argentina, que vive em Barcelona, na Espanha, já coloriu páginas de mais de vinte livros infantis, entre eles “Cachtánca”, o conto russo de Tchékhov publicado recentemente no Brasil pela Globinho com tradução de Tatiana Belinky (leia a resenha aqui). Ilustrar um clássico tem um peso extra, mas Rebeca tirou de letra. Nos ambientes externos, há belos cenários de neve, tão expressivos, que dá vontade de buscar um casaco no armário. Nos ambientes internos, cores vivas e quentes aconchegam Cachtánca, a personagem principal. Depois de ver a cadelinha, que se perdeu do dono, dormir solitária na neve, torna-se um alívio acompanhar seu sono sobre o colchãozinho verde de bolinhas pretas, bem ao lado do sofá. A neve continua caindo em flocos redondos, mas lá fora, vista através da janela. As estampas das roupas, das almofadas, das paredes e de outros objetos preenchem espaços e criam essa atmosfera aconchegante e colorida. A mistura de cores fica ainda mais intensa quando a história chega ao circo. O novo dono de Cachtánca é um domador circense que a leva para um espetáculo. A roupa do domador no picadeiro é uma atração à parte: há desenhos diferentes em cada peça, do sapato à gravata.

Abaixo, há a entrevista bem-humorada de Rebeca, concedida por e-mail, ao Bússola, em que ela conta quais materiais e técnicas usou em “Cachtánca”, cita seus livros infantis preferidos e qual momento de sua própria infância ela escolheria para um desenho caprichado. Para saber mais sobre os trabalhos de Rebeca, visite o site da autora.

Que idade você tinha quando descobriu o prazer de desenhar?
Eu tinha 4 anos. Encantava-me passar a maior parte do tempo desenhando e fazendo ginástica artística.

Quando você se deu conta de que gostaria de virar ilustradora profissional?
Aos 20 anos, ao me mudar para Barcelona, onde descobri o mundo fantástico dos álbuns ilustrados. Neste momento eu não tive dúvidas de que colocaria todo o meu empenho para atingir o meu objetivo.

Como você definiria uma ilustração ideal?
A que você sente prazer ao fazer e, depois, ao observar.

 Quais são seus livros infantis favoritos?
“O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry; “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll; e “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain.

 E os ilustradores que mais te inspiram?
A lista é grande. Por sorte, o mundo está cheio de ilustradores com os quais é possível aprender. Para citar alguns: Kveta Pacovská, Lorenzo Mattoti, Olivier Tallec, Lisbeth Zwerger, Pablo Auladell, Beatrice Alemagna e os pintores fauvistas.

Capa de "Kiwi, un pájaro más bien raro", um dos livros infantis ilustrados por Rebeca Luciani (Foto: http://www.rebecaluciani.es/)

Qual momento da sua infância você escolheria para ilustrar? Descreva como desenharia este momento, por favor.
Desenharia um período dos 7 aos 9 anos. Desenharia um momento de meus verões da infância, remando em um pequeno bote no rio, de um lado para o outro, sob a visão atenta de meus pais, com o verde da vegetação e o marrom da água, acompanhados pelo assobio dos pássaros e o canto das cigarras. Era delicioso!

Que recomendação você daria a um jovem que quer ser ilustrador?
Que não pare de tentar e, menos ainda, de desenhar, todos os dias e a toda hora. Uma pessoa não é um desenhista só quando se senta para desenhar, mas é desenhista durante as 24 horas do dia. Qualquer momento é bom: enquanto esperamos o ônibus, o trem, tomamos um café no bar, quando estamos de férias diante de uma bela paisagem ou em casa em frente à xícara de café com leite. É uma prática diária.

Qual é a parte mais legal e o maior desafio de ilustrar um livro clássico como “Cachtánca”, de Tchékhov?
O maior desafio é justamente o de desenhar um clássico que se impõe por si só. Neste caso, era a primeira vez que trabalhava com esta editora e isto aumentava o desafio (e o medo). Mas ao começar a entrar no mundo de Cachtánca, tudo foi andando “sobre rodas”. Uma vez que se entra no universo [da história], o restante são as horas e o trabalho.

Que técnica e materiais você usou em “Cachtánca”?
O livro está pintado em acrílico e, em pequena proporção, há algo de lápis de cor. Além disso, cito as horas (muitíssimas horas) e uma enorme dose de amor.

Você pode citar a sua ilustração favorita deste livro?
Na página final, em que três personagens [um deles é Cachtánca, a cachorrinha do título] caminham por um povoado cheio de neve. Esta imagem é, sem dúvida, a que eu mais gosto.

Há um livro clássico que você gostaria de ilustrar no futuro? 
“Alice no País das Maravilhas”. Porque quero complicar a vida! Ahahaha. Não, falando sério, creio que é um livro que permite muitos universos que eu gostaria de ilustrar. Seria um autêntico luxo e um grande desafio.

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