5 livros que me marcaram na infância (por Débora Costa e Silva)

* Débora Costa e Silva, jornalista, é amiga próxima do Bússola de Livros. Já leu resenhas, opinou, participou de reuniões e propôs ideias. Desta vez ela participa com seu próprio texto e suas próprias memórias de infância.

Fui daquelas crianças que pedia para a mãe ou a avó contar a mesma historinha quinhentas mil vezes até chegar o ponto em que eu decorava e saía contando para os outros fingindo que estava lendo. Eu tinha muita pressa para aprender a ler. Acho que via a leitura como uma forma de independência e aí quando conseguisse, poderia ficar no meu canto, no meu mundinho, sem precisar do intermédio de mais ninguém. Mas é claro que isso custou a paciência de muitos familiares.

Os gibis da Turma da Mônica foram os meus maiores estímulos para ler. Eram essas histórias que mais me fascinavam e atiçavam a minha imaginação. Por volta dos 7, 8 anos, vivia dizendo que ia trabalhar com o Maurício de Souza quando crescesse – uma pena que não fui muito longe no universo dos quadrinhos.

Talvez por esse histórico tenha sido um pouco custoso montar essa lista abaixo, dos cinco livros que marcaram a minha infância. À princípio, lembro de ler muito quando era pequena, mas parando para pensar nos livros me deu um branco e só lembrei de gibis, almanaques da Mônica, almanacão de férias e coisas do tipo. Cheguei a pensar até que eu não teria livros para colocar aqui, mas arrumando minhas estantes eles apareceram. Aos montes. Segue o top 5:

Pelegrino & Petrônio – Ziraldo
Não foi o único do Ziraldo que eu li (teve outro que só de olhar a capa me fez voltar no tempo, o do joelho Juvenal). Li aos seis anos, por indicação da escola. O livro conta a história de dois pés que tinham metas bem diferentes: um tinha habilidades de bailarino e o outro com a bola de futebol. Só que eles eram irmãos, ou seja, pertenciam a um mesmo corpo. Para não estragar a surpresa de ninguém, o final concilia os dois talentos. O livrinho é curto, mas divertido. Como eu fazia balé desde pequena, acho que ter um pé de bailarino na história me fisgou. E não tem jeito: as ilustrações do Ziraldo são sempre ótimas e para mim simbolizam bastante essa fase de alfabetização.

Não Confunda – Eva Furnari
Esse é daqueles livros que por mais que já soubesse as piadas de cor e salteado, era sempre bacana reler. Ele brinca com rimas divertidas e sonoridades de palavras que ao ouvirmos, são bem parecidas, mas que ao trocá-las de contexto dão novos significados às frases. Era de praxe brincar com a minha mãe de ficar repetindo ou até criando novas rimas. Ao folhear o livro hoje, é claro que a reação foi diferente e não me fez gargalhar, mas é inevitável reler o livro sem esboçar um sorrisinho de canto de boca. São rimas bobinhas, como essa: “Não confunda: careca banguela com cueca amarela”. Aos seis anos, imaginar um careca banguela já é um barato, daí juntaram com a palavra cueca e uma ilustração bem engraçadinha para acompanhar e pronto: a combinação funcionou perfeitamente. São palavras que remetem ao ridículo e nesse mundo pré-palavrão e pré-internet da infância, era o suficiente para divertir.

Eu, Detetive – O Caso do Sumiço – Stella Carr e Laís Carr Ribeiro
Esse livro foi uma sensação na terceira série. Tivemos que fazer alguns trabalhos em grupo com ele na escola, tentar desvendar os mistérios na sala, um sucesso. Lembro até hoje da ansiedade causada pelo suspense da história. Com certeza foi o primeiro desse gênero que li. O bacana é que o livro pode ser lido de duas formas: a tradicional, respeitando a sequência dos capítulos, ou seguindo as indicações de um mapa/tabuleiro. Sim, o livro pode se transformar em um jogo. Infelizmente, não segui interessada por suspense. Talvez eu não tenha tido a sorte de encontrar outros bons livros que me inspirassem, mas acho que o estilo é que não tem muito a ver comigo, porque logo depois me joguei de cabeça em outro gênero: romance. E romance historinha de amor água com açúcar mesmo, não tenho vergonha de admitir.

A Hora Do Amor/Diário de Lúcia Helena – Álvaro Cardoso Gomes
Lembro como se fosse hoje a primeira vez que fui na biblioteca da escola, me achando super madura do alto dos meus 10 anos, para escolher um livro que não fosse da grade curricular. Perguntei para a Ângela, a bibliotecaria, onde ficavam os romances infanto-juvenis e fiquei lá vendo os títulos que mais me agradavam. Lembro que achei “A Hora Do Amor” interessante pela ilustração: um menino olhando pra uma garota de ponta cabeça na outra extremidade da capa. Levei para casa, devorei o livro e a partir dele fui atrás de todos os outros do mesmo autor, o Álvaro Cardoso Gomes. Aliás, fui atrás do autor literalmente, na Bienal do Livro de 1996, pedir autógrafo e tietar.

O livro conta a história do Beto, um rapazinho de origem humilde que morava em Americana (Alô, Thais Fonseca) e se aventurava diariamente roubando frutas do vizinho. Quando já estava achando chato e parecido demais com o Chico Bento, eis que surge a nova vizinha, Lúcia Helena, a princípio riquinha, metida e bonita demais. Só que, é claro, eles começaram a ficar amigos e passar o tempo inteiro juntos e o previsível aconteceu: ele se apaixonou.

O legal foi descobrir, entre tantas idas na biblioteca e após ter lido outros livros do mesmo autor, o “Diário de Lúcia Helena”. Vibrei, achei que era uma continuação da história, mas era ainda melhor: a versão feminina do mesmo romance, narrada em primeira pessoa pela personagem – e ainda bateu com o momento em que eu começava a escrever meus primeiros diários.

Li este segundo ainda mais vezes do que o “A Hora do Amor” tamanha a identificação. E fui surpreendida mais uma vez ao encontrar um dia na mesma biblioteca o livro “A Hora da Luta” – este sim uma continuação da história na versão do Beto. Por incrível que pareça, e para minha própria frustração, não terminei de ler este. Acho que as histórias das tentativas de trabalho do Beto na cidade me desestimularam – afinal, apesar de não me considerar nova para romances, ainda não tinha idade para pensar que trabalhar podia ser legal haha. Fica aqui a promessa de ler este livro e vir contar no blog o que achei da continuação da saga.

Rita Está Crescendo – Telma Guimarães Castro Andrade
Ainda no estilo “diário de pré-adolescente”, o “Rita Está Crescendo” também foi indicação da escola, se não me engano já na quinta série. Escrito em primeira pessoa, a linguagem chamou minha atenção por ser direta e bem humorada.

A personagem se ridiculariza e expõe suas dúvidas e medos, mas é cheia de personalidade – o que foi bastante inspirador nessa época quando nós, meninas de 11 anos, ainda não sabíamos direito quem éramos nem em quem estávamos nos tornando.

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