O Livro do Foguete

Do porão à cobertura, acompanhamos um buraco em todas as páginas deste livro – ou melhor, em todos os andares de um prédio. Tudo começa pelas mãos do filho do porteiro, um “menino bem trapalhão”, que acende um morteiro. Com uma cauda em chamas, o “foguete” começa a subir.

As próximas páginas têm como cenários as casas dos moradores, cada um deles pego de surpresa durante uma ação. Em tom “pastelão”, os personagens, tão atrapalhados quanto o filho do porteiro, atribuem a explosão a algum objeto ou a alguma situação. Há, por exemplo, o garotinho que acha que a “culpa” para o rojão foi da sua bolha de sabão, a “maior que já fez”;  o cachorro que acha que o gato que perseguia tem “fogo no rabo”; um moço que vê seu cigarro aceso pela chama e agradece a “gentileza”;  e por aí vai.

O buraco no livro, mencionado acima, é isso mesmo:  um espaço oval recortado na página. Com esse artifício simples, o autor e ilustrador Peter Newell criou uma história divertida e ingênua.  Os textos são curtinhos e com rimas. As ilustrações poderiam parecer datadas – a publicação data de 1912 -, mas hoje até ganham um charme extra por parecerem retrô.  Tanto roupas quanto objetos, como uma máquina de escrever e um cavalinho de brinquedo, parecem mesmo das antigas (ou melhor, dos anos 1910) e há poucas nuances de cores nos desenhos (parece até que adicionaram cores posteriormente a gravuras em preto e branco).

Buracos em livro e “Alice no País das Maravilhas”

O ar vintage de “O Livro do Foguete” ameniza e até dissolve o tom datado do livro, mas não se pode dizer o mesmo de outra obra do autor que tem o mesmo princípio: uma história que gira em torno de um “buraco”. Trata-se de  “The Hole Book”, publicado em 1908. O motivo para o recorte na página era ainda mais politicamente incorreto que o do morteiro: trata de um buraco de bala disparada por um rapaz chamado Tom Potts, que brincava com a arma sem saber que ela estava carregada (!!!). Não encontrei a edição em português, talvez ele não tenha sido publicado por aqui, mas há uma versão online em inglês na íntegra (a obra já está em domínio público).

Bom, o autor vem de outra época, vale lembrar (na minha infância, há poucos anos, eu me lembro do menino fumando um cigarro na embalagem de um chocolate, impensável nos dias de hoje…).  Ele nasceu em 1862 no estado de Illinois, nos EUA, e morreu em 1924, em Nova York. Em seu currículo entram outros livros infanto-juvenis de sua autoria,  tirinhas e cartoons para jornais e revistas (entre elas a conhecida Harper’s Bazaar) e ilustrações para outros autores. Um dos títulos mais famosos que ilustrou foi uma edição de 1910 de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll. Encontrei online o artigo “Peter S. Newell, Cartoonist”, publicado em um jornal da Universidade de Illinois de 1948, que diz que Newell passou por uma saia justa em “Alice”. Na época, foi “acusado”  por leitores de querer substituir o ilustrador antigo da obra, o inglês John Tenniel.  Newell tentou se defender explicando como pensou cada um dos personagens da obra.

Esse artigo (em inglês), dos que encontrei online, foi o que mais detalhou a vida do autor – em geral, há pouco sobre ele na web. Também apareceram algumas de suas obras e cartoons. Abaixo, deixo alguns links para quem quiser dar uma olhada.

Peter S. Newell, cartoonist

Peter Newell, The Naps of Polly Sleepyhead (tirinhas publicadas em jornais em 1906 e 1907)

Lista de livros do autor

The Hole Book (1908)

O LIVRO DO FOGUETE
Autor e ilustrador: Peter Newell
48 páginas
Editora Cosac Naify

 

 

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