Dois livros sobre Shirley, de John Burningham

No momento, eu diria que John Burningham é meu autor de livros ilustrados preferido. Fiquei apaixonada pelo seu trabalho em “Vovô”, publicado em 1984, e gostei muito de outros dois que comprei recentemente: “Fique Longe da Água, Shirley!”, de 1977, e “Hora de Sair da Banheira, Shirley!”, de 1978.

Em “Vovô”, o escritor e ilustrador inglês deixava uma página para mostrar a brincadeira de um avô com sua neta e, ao lado, uma página para mostrar o que a imaginação fértil da criança imaginava durante esses momentos de diversão. Nos dois livros sobre Shirley, mencionados acima, Burningham explora ainda mais essa oposição entre “realidade” e “imaginação”.

No caso, fica assim: de um lado, a mãe faz cobranças e recomendações à garotinha; de outro, Shirley faz uma viagem imaginária a um universo incrível, que envolve reinos distantes e piratas.

Ilustração de "Hora de Sair da Banheira, Shirley!" (Foto: Reprodução/ Red Fox)

Bom, vamos às histórias. A de “Hora de Sair da Banheira, Shirley!” se passa apenas durante um banho da personagem. Nesse tempo, sua mãe fala, em tom repreensivo, que ela deixou as roupas no chão, que sujou a blusa que estava limpinha de manhã e outras preocupações (chatas) de adultos. Não “ouvimos” nenhuma resposta de Shirley, mas vemos onde estão seus pensamentos… Ela navega pelo cano em cima de um patinho de borracha (com bolinhas cor-de-rosa), passa no meio de uma floresta, vai parar em um reino e até conhece o rei! Embora este livro tenha vindo depois (é de 1978; o “Hora de Sair da Água” é de 1977), falei dele primeiro porque gostei especialmente da ilustração que mostra Shirley desembocando do cano para um rio. Há uma espécie de túnel, com árvores, animais e uma ponte ao fundo. O céu tem tons rosados e a paisagem é toda esverdeada… Fiquei um bom tempo nessa página e ainda paro por bons minutos quando passo por ela. Há vários detalhes na pintura e a combinação das cores é de prender a atenção.

“Hora de Sair da Água, Shirley!” tem a mesma ideia, só que se passa em um dia na praia. A mãe e o pai sentam-se na areia (na verdade, a praia tem pedregulhos) para bordar e ler jornal, respectivamente. Shirley vai para perto do mar. À distância, a mãe fica regulando o que a filha pode ou deve fazer. E a criança vive uma aventura em alto mar com piratas e tesouros escondidos!

Em ambos os livros, percebe-se a diferença do colorido das páginas. Na dos adultos, há bastante espaço em branco e é pintada (propositalmente) com pouca imaginação. Na da criança, o colorido e a criatividade do cenário se intensificam. Em uma das páginas iniciais de “Hora de Sair para Água”, Shirley observa uma praia muito mais bela do que o leitor imaginaria ao olhar o cenário onde os pais da garotinha estão sentados. A imaginação infantil, dá a entender Burningham, é muito mais viva do que o pragmatismo de gente grande.

Os desenhos e as pinturas das aventuras de Shirley também parecem simples… De uma simplicidade criativa e muito hábil, e com a qual as crianças podem se identificar. A pintura do chão de terra em que Shirley e o cachorro encontram o tesouro, por exemplo, parece o tipo que crianças costumam fazer com giz de cera. Repito: essa simplicidade não compromete em nada a beleza, só a reforça.

Bom, como estou muito de bem com o autor, recomendo muito seus livros. E pretendo continuar a busca por suas outras obras. Direi aqui como estou me saindo nessa saga.

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Texto sobre John Burningham no Guardian

“Fique Longe da Água, Shirley!” e “Hora de Sair da Banheira, Shirley!”
Autor e ilustrador:
John Burningham
Editora: Cosac Naify
Páginas: 32 (cada)

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