Medo do escuro? Pergunte a Will Burrows, de “Túneis”, como proceder

Li “Túneis” há uns três anos já. E é curioso como alguns livros você lê numa semana e na outra já nem se lembra da trama, enquanto outros ficam numa área de fácil acesso no cérebro parece que só esperando para que você dê sequência na história quando sair o próximo título da coleção. A obra de Roderick Gordon e Brian Williams está, obviamente, nessa segunda leva de “inesquecíveis” para mim.

É, gosto demasiadamente de literatura infanto-juvenil inglesa. E há muitos motivos pra isso, mas “Túneis” me fez enxergar bem um dos principais deles: não tem nada de “ah, mas isso pode traumatizar o pequeno leitor”, “ai, essa cena é muito forte pra alguém de 11 anos” ou coisas assim. A história é essa, deal with it.

Will Burrows é um garoto de 14 anos bastante reservado. Duas pessoas apenas o conhecem de fato – seu melhor amigo da escola, Chester, um grandalhão que não é exatamente o cara mais popular da classe; e seu pai, Dr. Burrows, curador do museu do bairro em que moram em Londres. O grande passatempo de pai e filho é fazer escavações. Numa dessas “expedições” amadoras, o Dr. Burrows encontra vestígios de estranhas pessoas muito brancas, com cheiro de bolor, e que parecem aparecer e desaparecer com a mesma rapidez. Ele mal pode imaginar que essas criaturas são Styx, uma raça de humanos que mora nos subterrâneos e que com o apoio de uma religião criada por eles próprios, controlam seu povo, fazendo com que todos temam a superfície e seus habitantes.

Depois de uma curiosa doação ao museu de um artefato que funciona como uma potente lanterna quando a escuridão está completa, o Dr. Burrows decide se dedicar cada vez mais a uma escavação que estava executando, em segredo, no porão de casa, e desaparece por ela. É o suficiente para que a polícia, alertada sobre a situação, acredite que a depressiva mãe de Will é a responsável pelo que pode ser um assassinato.

Uma reviravolta na vida do garoto tem início, mas nada se compara ao que ele vai encontrar quando decide explorar os subterrâneos de sua casa, na companhia de Chester. E, por “reviravolta” leia-se morar com uma alcoólatra, ser preso e torturado e sofrer as inevitáveis perdas de personagens importantes e queridos para o leitor.

Corajosa, a trama termina em um ápice meio “Senhor dos Anéis”, com absolutamente nada decidido, exceto a certeza de Will de saber que seu mundo, como o conhecia, nunca mais será o mesmo.

Gosto de acreditar que ler algumas coisas na idade certa ajuda na formação do pequeno leitor como pessoa do mundo. Mas é muito mais do que ensinar a ser cidadão e ter caráter, o que é obviamente fundamental também. É preparar para a descoberta de que o idiota que te enche o saco na escola é nada perto de muitas outras pessoas e situações pelas quais você vai passar na vida, seja na descoberta de que entes teoricamente queridos podem não ser o que aparentam, ou mesmo na certeza de que sim, vai doer, e muito, tomar as decisões certas em determinados momentos. Tudo isso no cenário que para muitas crianças (e eu fui uma delas) é o próprio pesadelo – o escuro.

“Profundezas”, a sequência, já foi publicada aqui, assim como o terceiro livro da série, “Vertigens”.

 

Túneis
Roderick Gordon e Brian Williams
Rocco
480 páginas
www.tuneisolivro.com.br

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