And Here’s The Kicker: um livro sobre piadas

Gustavo Martins é nosso colaborador.  Ele é jornalista, músico e roteirista de TV (de programa de humor, inclusive).

Minha razão pra ter comprado “And Here’s The Kicker: Conversations With 21 Top Humor Writers on Their Craft” é a mesma pela qual é um saco assistir comédias comigo: eu gosto de ficar discutindo por que as piadas funcionam. É um hábito de pequeno, quando recitava piadas pra parentes em festas. Por que eles riam? Como faço pra eles rirem de novo? De onde vinha o português que experimentava o cocô e depois dizia “ufa, ainda bem que eu não pisei”?

Pro Gustavo daquele tempo (e pra Gina Indelicada até hoje) as piadas eram uma coisa sem dono, meio mágica, uma pipa que caía no seu quintal e você passava adiante sem cobrar nada. Elas eram filhas do livro do Juca Chaves com a página final da “Playboy”, ainda que ambos não pudessem assumir paternidade por elas.

Só bem mais pra frente descobri que 60% das risadas que já tinha dado na vida não eram histórias reais – como os outros 40%, principalmente puns fora de hora e tombos dos amigos. Minhas piadas de salão se deviam, veja só, ao trabalho de algum escritor, o que me fez desenvolver uma gratidão curiosa (curiosidade grata?) sobre o trabalho deles.

Mas aí que está, o Brasil tem muitos livros de piadas (alguns até na seção de história, politicamente incorretos e tudo) e pouquíssimos livros sobre piadas. Poderia teorizar/reclamar bastante sobre isso – brasileiros não ligam pra roteiro! O humor é todo baseado nos atores! Ninguém concorda comigo! -, mas já estamos no quarto parágrafo, vamos ao livro de uma vez.

“And Here’s The Kicker” é uma série de entrevistas com autores de filmes, colunas e programas consagrados de humor. Mike Sacks, ele mesmo escritor, falou por mais de dez horas com cada um pra descobrir como eles encontraram sua própria “voz” e um lugar ao sol no showbusiness (“indústria do entretenimento”? Muito escola de comunicação, né).

Um dos pontos fortes do livro é a variedade dos nomes presentes. Stephen Merchant, criador do “The Office” com o Ricky Gervais, conta como decide o nome de seus personagens. Harold Ramis, diretor e roteirista de “Feitiço do Tempo” e “Ghostbusters”, fala da frustração entre a ideia escrita e o que termina na tela. Merrill Markoe conta como foi criar o “Late Night” with David Letterman ao mesmo tempo em que vivia com o apresentador. E a lista vai longe, cobrindo desde o cara que inventou os desenhos dobráveis da MAD até o co-criador do Borat.

Alguns dos meus heróis pessoais dão depoimentos no livro, como Mitch Hurwitz. Fiquei feliz em saber que para o criador de “Arrested Development” a escrita é um processo sofrido e cheio de dúvidas, me identifiquei. Mesmo que o resultado do sofrimento dele seja o melhor roteiro de humor de todos os tempos, e o meu, quando muito, um post de blog.

Outro entrevistado que eu já admirava é Todd Hanson, o criador do “The Onion“. Não conhecia a história da “melhor fonte de notícias da América”, mas por alguma razão supunha que só pudesse ter nascido em Nova York. Errado: o jornal de notícias inventadas nasceu (e até hoje é chefiado) por amigos da Universidade de Wisconsin, e só foi pra Nova York em 2001 porque eles estavam cansados de andar sempre nas mesmas ruas de Madison. Sete meses depois, aviões derrubaram o World Trade Center e o “The Onion” acabou sendo o primeiro veículo de humor a publicar uma edição após o atentado, que acabou se tornando histórica.

Outras curiosidades sobre Todd que descobri na entrevista: seus artigos preferidos têm títulos como “Cientistas encontram nova forma de prolongar existência sem sentido” e nos primeiros sete anos de “The Onion” ele não ganhou absolutamente nada. Seu conselho pra quem quer trabalhar lá: funde seu próprio jornal.

Paul Feig, criador de "Freaks ad Geeks", em ilustração do livro

Além de outros nomes que eu já era fã como George Meyers (redator-chefe dos Simpsons) e o escritor David Sedaris, o livro também me apresentou alguns que eu nunca tinha dado atenção, como Paul Feig (criador do ótimo seriado “Freaks & Geeks“) e Dick Cavett, considerado o melhor entrevistador de talk show da história.

No site oficial do livro tem alguns trechos pra ler, além de uma curiosa entrevista sobre a história das “risadas enlatadas” em sitcoms. Mike Sacks já está trabalhando num segundo volume, e eu quero só ver ele conseguir um grupo ainda melhor que esse de entrevistados.

Como bom livro americano, “And Here’s the Kicker” também tem um lado “manual pra aspirantes”, com dicas de como encontrar agente, como mandar seu texto pra “New Yorker” ou criar pilotos de TV. Mas as entrevistas reforçam a triste verdade: não há caminho seguro para o sucesso. Para alguns, foram necessárias centenas de noites de stand-up pra ninguém até o texto tomar forma. Para outros, o humor veio fácil, mas foi preciso sobreviver seis anos num gueto judeu da Lituânia.

Ninguém pediu, mas se fosse pra dar um conselho, eu recomendaria esse livro mesmo. Não é uma leitura engraçada por si só, e na pior das hipóteses, fará o leitor desistir da carreira de humor ao perceber a quantidade de autocrítica e esforço necessários. Mas se tiver alguma curiosidade sobre a “mágica” que envolve o nascimento das piadas, terá encontrado um pote de ouro.

And Here’s the Kicker: Conversations with 21 Top Humor Writers on their Craft (edição em inglês)
Autor: Mike Sacks
Editora: Writer’s Digest Books
350 páginas

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