Woody Allen: O Nada e Mais Alguma Coisa

Eu não sou a pessoa mais amigável do mundo quando estou no ônibus ou no metrô, mas, felizmente, consigo quebrar essa tendência mal-humorada vez ou outra. Quando a tentativa dá certo, rende uma conversa boa, o tempo passa mais rápido (no trânsito de São Paulo, especialmente às 6 da tarde, isto é um grande feito) e eu até esqueço da fome. E, de quebra, ainda volto com livros novos para casa.

Isso mesmo! Tive a sorte de ter um “amigo de ônibus” gentilíssimo que me ofereceu 3 livros antigos, desses que acabam sobrando na estante. Me entusiasmei na hora! Um deles foi “O Nada e Mais Alguma Coisa”, que a capa entrega: trata-se de tirinhas sobre Woody Allen, desenhadas por Stuart Hample (1926 – 2010), um senhor multitarefas que trabalhou como cartunista, escritor de livros infantis e autor de peças de teatro.

A edição é de 1982, da L&PM, e reúne algumas histórias publicadas em jornais – no total, elas circularam pelo mundo entre 1976 a 1984. Como não me lembrava delas (em 1984 eu nem pensava em ler), pensei, a princípio, que o próprio Woody as tivesse roteirizado. Mas não: o trabalho até contou com a colaboração do cineasta, só que foi escrito por outras pessoas, incluindo o próprio Stuart Hample.

Em um dos textos que Hample publicou no Guardian um ano antes de falecer, ele contou que conhecia Allen desde os anos 60, quando o cineasta ainda era desconhecido e se apresentava para quase ninguém em shows de stand-up, em Nova York. Anos depois, mais precisamente na década de 1970, o desenhista propôs desenhar o projeto a um Allen já famoso (e em ascensão). Além de sair com uma resposta positiva, Stuart contou com algumas anotações antigas dos stand-ups de Allen e se encontrou várias vezes com o humorista para buscar o tom das tirinhas.

Vários dos temas que já aprendemos a reconhecer em Woody Allen estão do livro, como o medo da morte, as dificuldades de relacionamentos amorosos, questionamentos a respeito de Deus e visitas frequentes a analistas (na tradução, ele desabafa com a Dra. Fobíaca). Do ponto de vista do humor, as histórias são irregulares, algumas engraçadas e outras nem tanto, mas, em geral, estão aquém da graça refinada de Allen. Percebe-se um esforço notável em ser fiel às características do cineasta, é preciso dizer. Só que, simplesmente, as tirinhas não chegam lá. O próprio Stuart sabia disso e fez menção a esta ideia ao escrever um depoimento em primeira pessoa para o Guardian: “Se ele tivesse [escrito], provavelmente [as tirinhas] teriam menos espectadores – mas teriam sido muito mais engraçadas”.

No texto, traduzido livremente como “Como eu transformei Woody Allen em tirinhas de humor”, Hample também menciona, talvez fazendo um mea culpa, que precisava suar para equilibrar duas exigências antagônicas: de um lado as do cineasta, que queria atenção artística ao trabalho e, também, deixar sua reputação intelectual em dia (afinal, elas tinham o seu nome); do outro, as dos executivos, que queriam agradar um leque abrangente de leitores dos jornais – e pouco ávidos, segundo eles, a questões filosóficas e psicanalíticas.

Pode ser que esse cabo de força tenha contribuído para deixar as historinhas superficiais e pouco engraçadas. De toda forma, o livro vale a pena para saciar a curiosidade de quem, como eu, é fã do cineasta e gosta dos temas que ele trata. Em outras palavras, prefiro as tirinhas da Mafalda, do Quino, mas gostei de ver Woody Allen pequenino e complicado em desenho.

Leia mais

–  Como transformei Woody Allen em tirinhas de humor (Guardian)
Stuart E. Hample, humorista e cartunista, morre aos 84 anos (NY Times) 

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