A Sick Day for Amos McGee

Eu já tinha passado o olho pela seção inteira de infantis da Barnes & Noble quando, finalmente, estava sendo apressada para ir embora. Gastei tanto tempo ali tentando ver tudo que, no fim, tinha visto de perto bem pouco. Antes de sair, dei uma folheadinha derradeira nesta edição, que estava em destaque no  segundo andar. Alguma faísca acendeu, mas eu não tinha mais muito tempo e, talvez menos ainda, atenção sobrando. Como eu disse, já tinha gastado muita energia em todas as outras milhares de capas – a reserva estava baixa.

Bem, a visita foi um dos episódios de uma viagem de férias aos EUA que acabou há poucos dias. Tenho que dizer que aquela faísca que surgiu nos meus instantes finais na livraria significou levar o livro ao caixa e guardá-lo na mala até a volta para casa. Por isso, já no Brasil, foi uma surpresa perceber que, dadas as circunstâncias atordoadas da compra, o grau de acerto foi classificado por mim como “na mosca”. Ao virar as folhas, eu soltava frases admiradas que, se escritas, teriam várias exclamações no final. Sim, o livro é lindo! Para começar, temos a história sensível de um velhinho aparentemente solitário e dócil, que acorda cedo, toma seu café e seu ônibus para trabalhar no zoológico. Além do semblante simpático, o velhinho conquista o leitor por outro detalhe: ele não só cuida bem dos bichos, como lhes dá atenção especial a partir das características de cada um. Eles são diferentes não só por conta das espécies, mas porque têm personalidades diferentes. Há, por exemplo, o elefante que gosta de pensar muito antes de fazer uma jogada no xadrez, o pinguim muito tímido e a coruja que adora ouvir histórias e tem medo do escuro. Para cada um deles, Amos McGee dedica um tempinho de acordo com o que eles são e com o que gostam de fazer.

Tudo isso seria fofo o suficiente e um assunto interessante, só que o autor, Philip C. Stead acrescentou mais. O sr. McGee pega uma gripe e precisa ficar em casa. Seus amigos do zoo sentem sua falta e resolvem visitá-lo. Pegam o ônibus (sim!) e vão até a casa do velhinho para lhe fazer companhia. Já tínhamos visto o sr. McGee pegar o ônibus para ir até o zoo e, logo depois, os bichos tomariam o mesmo ônibus no caminho inverso, numa demonstração de que, sim, o carinho é recíproco.

Ah, as ilustrações!

Deixei a frase acima como intertítulo mesmo porque, bem, as ilustrações são muito caprichadas. Lembro de ter falado, em outro post, da minha reação feliz ao ver os desenhos da francesa Rébecca Dautremer em “Cyrano”. Pois bem, senti algo parecido ao ver as da ilustradora americana Erin E. Stead neste livro.

Amos McGee conta história para a coruja no zoo (http://erinstead.com/)

Além dos traços a lápis, ela pinta alguns personagens e elementos do cenário com xilagravuras. Nem tudo é colorido e as cores usadas são bem suaves. O resultado é bem legal! Também são notáveis as figuras dos bichos e do sr. McGee,  muito expressivas e delicadas. E existem vários detalhes capazes de desviar por segundos a atenção do leitor e arrancar um sorriso – foi o que aconteceu comigo ao ver um passarinho caminhando com uma gravata e uma pasta e um ratinho esperando um ônibus na rua do Sr. McGee.

Outra coincidência com Dautremer  – a primeira é apenas a de que ambas, talentosíssimas, me arrancaram suspiros – é o fato de que Erin C. Stead também participa do livro em parceria com o marido, no caso Philip, citado acima. Pelo que li a respeito de ambos, foi ele que a incentivou a se tornar ilustradora – este foi o primeiro livro dela. Ele também é ilustrador, além de escritor, e já conhecia o talento de Erin. Mas ela, muito tímida, não tinha confiança para mostrar os trabalhos para ninguém ou de seguir adiante na carreira. Certa vez, sem que ela soubesse, ele mostrou uma ilustração de Erin para seu editor, durante o processo de pré-criação de “A Sick Day for Amos McGee”. O editor ficou admirado! Phillip, então, contou para Erin o que havia feito enquanto ela estava fora de casa. A recepção da notícia foi boa e logo ela arregaçaria as mangas para começar o trabalho que, tempos depois, lhe renderia mais incentivo: depois de lançado, o livro venceu o prêmio norte-americano Caldcott Medal de 2011 e foi considerado um dos melhores livros ilustrados para crianças pelo New York Times em 2010.

Como tenho a versão em inglês, mantenho o título original no post, mas vi que o livro foi publicado em terras brasileiras como “Um Dia na Vida de Amos McGee” pela editora Paz e Terra. Ponto para a editora.

Para saber mais sobre Erin e sobre Phillip vale visitar os sites oficiais de casa um (e que, claro, se “linkam” em vários momentos). De quebra, é bem legal ler este texto, de Phillip, sobre o trabalho e a personalidade de Erin – tão bonito que quase me fez chorar.

Site de Phillip C. Stead
Site de Erin E. Stead

A SICK DAY FOR AMOS MCGEE
Autor: Phillip C. Stead
Ilustradora: Erin E. Stead
Editora Roaring Brook Press
32 páginas

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