Túnel do tempo: entrevista com Ana Maria Machado

Nessas limpezas na conta de e-mail que se tornam inevitáveis (ver o número 5 mil na caixa de entrada ficou meio assustador), encontrei uma entrevista antiga, de maio de 2009 (ok, só se passaram 3 anos, mas parece que faz tanto tempo…), que fiz com a escritora Ana Maria Machado. O texto continua no ar neste link (foi uma surpresa encontrá-lo pois, quando os sites mudam – e eles têm mudado tanto nos últimos anos -, geralmente algumas coisas se perdem) mas, de toda forma, vou reproduzi-lo no Bússola, já que tem tudo a ver. A entrevista, de 30 de maio de 2009, foi feita nos tempos em que eu trabalhava no canal infantil do UOL. Tempos depois, fiz a resenha do livro para este blog (leia aqui). Bom, aí vai, direto do túnel do tempo. Ah, antes, aproveito para dizer que encontrei outros textos sobre livros mais ou menos desta época perdidos na caixa de e-mail. Os que forem mais legais, publicarei por aqui também.

Entrevista com Ana Maria Machado (30/05/2009)

Quem se interessa por leitura já deve ter ouvido falar no nome de Ana Maria Machado (esta frase vale tanto para os pequenos quanto para os adultos). A escritora brasileira tem quarenta anos de carreira e livros infantis famosos e premiados, com nomes engraçados como “Bento que Bento é o Frade” e “Camilão, o Comilão”.

Depois de anos dedicados à escrita, ela resolveu inovar: lança um livro de poesia chamado “Sinais do Mar”, com direito a rimas sobre bichos como siri, caramujos e até sobre água-viva (“água-viva quando morre fica sendo água morta?”, diz o poema).

O tema tem tudo a ver com a infância de Ana Maria, que costumava passar os verões em Manguinhos, no Espírito Santo. “Ficava quase três meses por ano à beira do mar, com meus avós, junto à natureza”, conta a autora, em entrevista ao UOL Crianças. Na conversa por e-mail, além de suas memórias dos tempos de criança, Ana Maria fala um pouco sobre os livros que gosta de ler e dá indicações dos que acha legais, incluindo a saga do bruxo “Harry Potter” (saiba mais sobre a autora no site oficial).

 Por que resolveu escrever livro de poesias sobre o mar?
O mar sempre foi uma presença muito forte na minha vida e no que escrevo. Nasci e me criei no Rio, mas quando era criança costumava passar os verões na praia de Manguinhos, no Espírito Santo. Ficava quase três meses por ano à beira do mar, com meus avós, junto à natureza e às tradições.

Como não havia eletricidade, todas as noites as pessoas se reuniam para contar e escutar histórias. Cada adulto tinha a sua especialidade, contando os mais variados tipos de história. Tenho certeza que sem os verões em Manguinhos eu escreveria bem diferente.

Tem alguma memória da sua infância sobre o mar que você se lembra bem?
Tenho algumas memórias, muito raras, SEM o mar. Por exemplo, morei dois anos em Buenos Aires , com 6 e 7 anos, e toda vez que subíamos algum morrinho de carro, eu achava que ia ver o mar lá de cima e ele não estava.

Quais livros você gostava de ler quando era criança? 
Qualquer livro bem escrito. Devoro romances e ensaios, leio e releio poesias. A minha adolescência foi repleta de livros, que me proporcionaram grandes prazeres e descobertas. Ficava abismada com o jeito de escrever de grandes autores e cronistas, como Rubem Braga.

Na sua opinião, o que é preciso para ser um bom escritor?
Ser um bom leitor. Ler muito, muito, e variado.

 Quais livros infantis você recomenda?
Não recomendo livros. Fico com os clássicos, para uma indicação básica, mas há ótimas sugestões também entre os novos. Recomendo autores: Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Lygia Bojunga, Sylvia Orthof, Ziraldo, Bartolomeu Queiros, João Carlos Marinho, eu mesma, e poetas como Cecilia Meireles, Vinicius de Moraes, Roseanna Murray, Mario Quintana, José Paulo Paes.

E muitos, muitos outros, impossível citar todos. Entre os estrangeiros, destacaria alguns títulos maravilhosos e imperdíveis, que têm ótimas traduções entre nós: “Peter Pan”, “Pinocchio”, contos de fadas em suas versões integrais, “O Ursinho Puff” (também conhecido como Pooh), “A Ilha do Tesouro”, todos os títulos de Beatrix Potter, o que encontrarem de Alan Garner e Katherine Patterson. E mais os que nem precisam ser recomendados, de tanto sucesso que fizeram recentemente: “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis”.

Quando você resolveu se tornar escritora?
Quando eu era criança, sonhava em ser artista de cinema, mas achava que ia mesmo era ser professora. Estudei para isso. E fui professora por um bom tempo. Só depois é que descobri que era escritora. Mas sempre gostei de escrever. Fazia diário, escrevia muitas cartas, fazia parte da equipe do jornalzinho da escola, essas coisas…

Comecei escrevendo para adultos e sabia que “tinha jeito” para escrever. Conhecia muito bem a língua (era professora de português), estava começando a trabalhar numa tese de doutorado sobre Guimarães Rosa dizer, língua e literatura eram meu elemento. Por que não para crianças também? Não vi nenhum motivo para excluí-las de minha preocupação estética com o uso da linguagem, terreno onde sempre me movi. Então somei, ampliei, e incluí a criança nessas minhas vivências da arte da palavra.

 

 

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