De garotas e de monstros


Tenho uma certa implicância com livros/desenhos que são desenvolvidos para dar apoio ao lançamento de uma linha de brinquedos. Mesmo assim, como gosto muito do tema (monstros clássicos, não vida de colegial), decidi encarar as páginas rosinhas de “Monster High” pra ver o que acontecia.

Apesar de ter certeza de que vou ler os próximos títulos (e vou dar mais dinheiro pra Mattel com as bonequinhas da série – já comprei três), nem tudo foi alegria. Ao mesmo tempo em que fiquei surpresa por quanto a história me prendeu, há alguns clichês crônicos que me irritaram profundamente – e já começo a achar que eles são característicos de literatura infanto-juvenil norte-americana… Mas isso é outra história.

Vamos aos fatos: “Monster High” parte do principio de que todos os monstros que ficaram conhecidos pelo cinema e literatura realmente existiram. Mais do que isso, formaram famílias. Mas como Britney Spears nos ensinou, a vida nos holofotes não faz bem, e esse pessoal meio diferente, percebendo isso, resolveu se isolar numa cidadezinha, Salem (alguém, alguém?), e levar existências comuns, tendo sempre o cuidado de não chamar a atenção, para não serem perturbados. A trama começa com a “ligação”/nascimento de Frankie Stein, que, como se nota, é filha de um cara meio verde e sua noiva (agora esposa).

Feita no tamanho de uma adolescente de 16 anos, a garota é equipada com uma série de informações e sensações mesmo antes de sair do laboratório de seu pai. Aqui já aparece o primeiro problema do título: numa tentativa de deixar superclaro que a trama está acontecendo no tempo presente, zilhões de citações a nomes de marcas de maquiagem e roupas, assim como revistas e modelos, começam a surgir nas páginas. Acontece que depois do segundo parágrafo descritivo sobre como o vestido que Frankie quer é igual ao da última coleção must da Vogue Teen ou whatever, você quer ver se pode pular pra outra página, onde talvez aconteça de verdade alguma coisa.

Bom, não vai demorar para que ela faça amigas dentro da “colônia” da cidade, entre as quais Lala, Cleo, Blue e Clauwdeen. Na escola, a Merston High, o dia-a-dia é corrido o suficiente, principalmente porque pessoas comuns, os normies, também estudam ali.

E este é o segundo núcleo da história. A família de Melody Carver se mudou para a cidade por causa de um problema respiratório da garota. Com a mesma idade das descendentes de monstros, ela passa a frequentar a Merston, e já no primeiro dia acaba por, inadvertidamente, ganhando a inimizade de Cleo. Mas Melody está interessada realmente é em conhecer mais de Jackson, o garoto introvertido e fofo que mora na casa da frente.

Como se pode esperar, o caminho das garotas vai se cruzar, sendo que tudo ganha novos contornos na tão fadada (ao menos nas histórias norte-americanas) noite do baile de formatura.

Há elementos realmente bacanas no livro, como a descoberta de Frankie de que não, o mundo não é legal como parece ser nos editoriais de moda e as pessoas podem ser medíocres e más (nem sempre nessa ordem); a maturidade de Melody, que, já tendo sido vítima de bullying, desconfia que a menina que quer ser sua amiga é na verdade uma insegura manipuladora; e mesmo a frustração de Jackson, que por não saber quem de fato é, tem de lidar com características que nem sabe possuir.

Outros, porém, são de doer. Além dessa literatura de catálogo de revista, e daquelas liçõezinhas de moral de que não se deve contrariar ordens dos pais, ou de que as pessoas não deveriam julgar quem é diferente delas, para mim, o pior foi a mudança de comportamento de Frankie no final da trama. Nas últimas 10 páginas alguém deve ter dito para a escritora que já era hora de acabar o livro e ela, simplesmente, jogou para cima toda a personalidade que construiu para a protagonista para conseguir dar o gancho para o restante da série.

Ainda assim, vale a leitura descompromissada.

 

Site da sériewww.monsterhigh.com

Monster High
Lisi Harrison
354 páginas
ID Editora