Estava Escuro e Estranhamente Calmo

Comprar pela internet é tendência, mas ainda me parece uma incógnita. Há quem já compre de tudo, até coisas enigmáticas para mim, como anéis (como saber se cabem no dedo?) e sapatos (como saber se eles não apertam o dedinho ou se arranham o calcanhar?). Admiro a praticidade da coisa e tenho olhado para ela com cada vez mais simpatia. Só que, na prática, ainda estou engatinhando.  Um dos meus cambaleantes baby steps aconteceu há poucas semanas, em uma dessas  (sedutoras) promoções de sites de editoras. Livros são mais difíceis de errar, pensei, imaginando que eles não têm a obrigação de servir ou encaixar perfeitamente em algum lugar (como dedos e pés!)

Claro que, ao olhar a estante virtual, deu aquele nozinho na garganta de nem poder folhear a edição antes de fazer a decisão final (ou seja, a de digitar a senha do cartão). Com coragem e uma boa dose de compulsão consumista, fui em frente e cliquei em alguns livros, incluindo nesta edição, que dá nome ao post. Como não dava para fuçar muito, o título e a capa bastaram para me seduzir. E, neste caso, eu não conhecia o autor. Bateu mesmo uma vontade de saber mais sobre aquele lugar tão escuro e o que havia naquela casinha que a figura humana da capa observava com um binóculo.

Enfim, em mãos

Sim, fui bem sucedida na minha compra online. Com o livro em mãos, uma semana depois, fiquei bem impressionada com as ilustrações do autor, o alemão Einar Turkowski, premiado na prestigiada Bienal de Ilustração de Bratislava em 2007.

A história começa com a chegada de um forasteiro a uma ilha. Ele ancora seu barco, se instala em uma casa abandonada e, em pouco tempo, pendura ferramentas e objetos muito estranhos por ali. Os vizinhos o detestam de cara e resolvem observá-lo à distância. Avançam na investigação e descobrem que ele tem uma capacidade incrível de pescar objetos e peixes frescos em nuvens. Nem assim mudam de ideia: ele se torna, apesar da habilidade excepcional, “persona non grata”.

Ao longo das páginas, não há informações sobre como o forasteiro realiza a proeza ou alguma informação mais pessoal  – como de onde veio ou mesmo seu nome. Nem os vizinhos malas descobrem, nem os leitores são informados pelo narrador. Mesmo sobre os moradores da ilha, não há informações individuais, eles são apenas parte de um bando. Sem dúvida, fica mais fácil simpatizar com o forasteiro do que com o moradores que o enxergam com preconceito e o excluem. Há, portanto, em meio a uma viagem fantástica do autor, uma trama sobre o julgamento precipitado do “outro” e a falta de diálogo. Mas o que mais me segurou no livro foi o clima de mistério, que o livro promete na capa e entrega muito bem.

Tanto as ilustrações a lápis em preto e branco quanto o texto reforçam esse clima e envolvem o leitor. Na primeira vez em que li, tive até a impressão de que o autor forçou a mão na fantasia misteriosa – tanto que quase não entendi muito bem o fim (que não vou contar) e suspeitei do interesse de crianças (já que se trata de um livro infanto-juvenil) em ler -, mas a segunda leitura me conquistou de vez.

Acho que o tom “sombrio” e fantástico ficaram mais interessantes sem explicações objetivas. Também gostei das ilustrações escuras – o céu dos cenários é sempre preto –, dos cenários e das engenhocas do forasteiro, cheias de detalhes. Mas não esperem nada muito fofo das ilustrações. Nem as nuvens fazem esse papel mais simpático. Em vez de parecerem feitas de algodão, como no imaginário comum, elas são escuras e densas. Parecem até cestos gigantes –  o que, pensando bem, faz mais sentido numa pesca em pleno céu.

ESTAVA ESCURO E ESTRANHAMENTE CALMO
Autor: Einar Turkowski
Editora: Cosac Naify
24 páginas

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    1. Morango Sardento — Bússola de Livros

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