Manuel Bandeira em “O Poeta do Castelo”

Cena de "O Poeta do Castelo" (Reprodução)

Em meus planos, este post traria uma resenha fresquinha sobre um livro recém-terminado. Mas tenho que confessar que, na prática, meus dias livres de Carnaval seguiram qualquer outro caminho, menos aquele que eu tinha planejado…Enfim, ao menos posso dizer que, se os livros não foram os protagonistas do meu feriado, os filmes tiveram um bom espaço. É aí que entra a inspiração para este post substituto, pois vi dois longas de Joaquim Pedro de Andrade (1932 – 1988), diretor que se dedicou a algumas adaptações de livros e a documentários sobre autores brasileiros.

Revi há alguns dias “Macunaíma” (1969) e vi “O Homem do Pau Brasil” (1981). Do primeiro saí especialmente admirada pois, além de ter Paulo José – ótimo – como o herói, o DVD remasterizado ficou com cenários bem vivos por conta das cores realçadas – notei principalmente o colorido da cena em que Macanuíma enfrenta o gigante em uma festa cheia de gente estranha. Já o “O Homem do Pau Brasil”, apesar de ter momentos bem interessantes (Grande Otelo bancando o francês certamente está entre eles), me exigiu uma atenção extra, não só pelo formato (propositalmente) caótico e surrealista, mas principalmente pelo tom panfletário de boa parte dos diálogos e das falas, engajadas no pensamento mordernista de Oswald de Andrade. De toda forma, pretendo me ater mais sobre eles em outra ocasião.

O que surgiu na minha cabeça após ver os longas e que comento, por ora, é o curta-metragem “O Poeta do Castelo”, sobre Manuel Bandeira. O filme, produzido em 1959 – o primeiro de Joaquim Pedro de Andrade como diretor -, mostra o poeta na intimidade de sua casa, trajando pijama, preparando seu café da manhã e caminhando em ruas assustadoramente vazias do Rio.

Gosto desse curta especialmente por o roteiro ter escolhido mostrar situações comuns do poeta. Tudo ali é claramente encenado, mas mostrá-lo em momentos singelos deu graça ao filme. Bandeira não está em nenhuma cerimônia em que é homenageado ou há um único depoimento de um especialista sobre sua obra. Ele é o único em cena e aparece apenas em situações rotineiras (claro que o fato de Bandeira ser amigo próximo da família de JPA foi essencial para filmá-lo desta forma), enquanto sua voz, em off, recita alguns de seus poemas.  Quero dizer que há ali um contraste interessante entre o cotidiano comum, entre sua fragilidade física até (ele aparece de pijama trabalhando na cama ou tossindo na frente de um bar próximo a sua casa, por exemplo), e a força dos poemas lidos por ele. Como se as imagens do seu dia a dia aparecessem descoladas de seus pensamentos, representados por sua voz – ideia que ganha força quando ele narra “Vou-me embora pra Pasárgada”, um de seus poemas mais conhecidos, sobre um mundo idealizado. Felizmente, o curta está online e vai abaixo. Achei que teria a ver com o blog por que tem Manuel Bandeira, claro, mas também por causa dos poemas narrados por ele. Não tem mesmo muito a ver com o Carnaval (embora tenha tido a ver com o meu, mais tranquilinho, depois de eu ter passado uns anos trabalhando na “folia”), mas acho que vale para quem quer ver ou rever.

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