A Invenção de Hugo Cabret

Resolvi buscar este livro meio de supetão depois de ler uma matéria na Carta Capital (aqui há um trecho dela online) sobre o filme de Martin Scorsese. Bem, só o fato de ter inspirado um filme de Scorsese – seu primeiro em 3D -já seria um bom motivo para despertar interesse, mas uma luzinha a mais no compartimento de curiosidade do meu cérebro foi acesa quando vi que a história tinha passado pelos olhos de Maurice Sendak, o autor (que gosto muito) de “Onde Vivem os Montros”.

Não encontrei a edição logo de cara, tive que fazer uma encomenda em uma grande livraria. Quando a recebi em casa, minha primeira reação foi me assustar com sua considerável grossura para um infanto-juvenil. Mas meu espanto logo virou encantamento: boa parte das páginas são ocupadas por ilustrações bem expressivas do autor Brian Selznick, ilustrador e escritor (à moda de Sendak – que é uma de suas maiores influências), o que torna o livro bem bonito e sua leitura bem mais rápida do que eu pensava.

Todas as ilustrações são a lápis, em cinza e branco, como se tivessem sido feitas diretamente nas folhas. Não ocupam o livro todo, há uma boa parte de “palavras” nele também. Mas os desenhos e o texto se complementam na contação da história.

Particularmente, achei as ilustrações o diferencial do livro, tanto pela beleza e pelos detalhes quanto por casarem bem com  um dos temas centrais: os primórdios do cinema. Selznick aproveitou parar criar desenhos que parecem planos de um filme em preto e branco. Logo na introdução, o autor faz a relação: “(…) Antes de virar a página, quero que você se imagine sentado no escuro, como no início de um filme. Na tela, o sol logo vai nascer, e você será levado em zoom até uma estação de trem no meio da cidade” (…).

Já o texto, não achei a linguagem tão surpreendente ou  especialmente saborosa (ao menos na tradução em português, é bem escrito, mas não vai além disso), mas o autor costurou bem a trama e criou um suspense capaz de segurar a atenção. Em linhas gerais, a história se passa nos anos 1930, em Paris, e tem como protagonista Hugo,  um garoto de 12 anos, órfão, prodígio em consertar qualquer coisa mecânica – especialmente relógios. Faz parte de sua ligação com o pai, morto em um incêndio, um autômato quebrado, que ele sonhava poder consertar. Ele tenta fazer isso na estação de trem onde passa a morar com o tio, um beberrão que logo some dali. Sozinho, dá um jeito de sobreviver e de levar seu sonho adiante, às vezes roubando lojas da vizinhança, incluindo uma de brinquedos.

O dono, um senhor já velho, pega o roubo e dá uma lição em Hugo: rouba o caderninho com as informações sobre o autômato, uma herança deixada por seu pai. A busca pelo caderno dá início a uma sucessão de mistérios que vão se aproximando de um outro maior, relacionado à vida do dono da loja de brinquedos. Sem querer, Hugo conta com a ajuda da afilhada desse senhor aparentemente rude, chamada Isabelle, sua “companheira de aventuras”.

(Reprodução/ http://www.theinventionofhugocabret.com)

A primeira parte da trama me pareceu um pouco convencional, especialmente quando Hugo se torna órfão e vai morar com o tio que não lhe dá atenção. Talvez por ter visto “Harry Potter” e “James e o Pêssego Gigante” tenha achado previsível. Mas, especialmente a partir da segunda parte, o mistério vai ficando mais envolvente e ligado a referências reais do cinema.

Longe de mim querer ser spoiler, mas vale mencionar que a maior inspiração da história é Georges Méliès – mágico e diretor de cinema francês, dono do clássico “Viagem à Lua”, de 1902. O autor tomou fatos de sua vida para criar esse universo infanto-juvenil ficcional, que traz imagens de filmes do início do século 20 e até alguns desenhos do punho de Méliès. Embora as personalidades dos personagens tenham sido completamente imaginadas por Selznick, o livro só ganha com esses detalhes históricos, incluindo a existência dos autômatos, que pelo que vi eram apreciadas pelo diretor. Hoje peças de museus, as máquinas tinham uma espécie de robô que desenhava ou escrevia mensagens, não raro usadas por mágicos das antigas para impressionar suas plateias. E viraram peça-chave na história de Hugo Cabret.

Pela qualidade das ilustrações, pelo mistério e por citar referências históricas, acho que a “A Invenção de Hugo Cabret” (pensando bem, acho que teria mais a ver se fosse “a descoberta” no lugar de “invenção”) pode agradar crianças, mas não só. Adultos também podem gostar da leitura (mais rápida do que parece, repito) e até tomá-la como ponto de partida para saber mais sobre a obra fantástica de Méliès.

Links legais:
Curta “Viagem à Lua”, de Georges Méliès: http://www.archive.org/details/Levoyagedanslalune
Entrevista (em inglês) com Brian Selznick: http://www.scholastic.com/browse/video.jsp?pID=1640183585&bcpid=1640183585&bclid=1699210720&bctid=1688353936
Ficha da adaptação de Scorsese no Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0970179/
Site oficial de Brian Selznick: http://www.theinventionofhugocabret.com

A Invenção de Hugo Cabret
Autor e ilustrador: Brian Selznick
Editora SM
534 páginas

3 Comment

    Olá, Thaís, tudo bem?
    Em relação ao tema, vale ler coluna de Dolores Prades, editora do livro, para o Publishnews, publicada na Emília: http://www.revistaemilia.com.br/mostra.php?id=143
    Espero que goste.
    Abraços,
    Equipe Emília

    13 mar 2012 | Responder

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