5 livros que me marcaram na infância

No fim do ano passado, minha irmã mais velha (e única) resgatou de uma pilha de livros usados uma edição já meio amarelada de “A Primavera da Lagarta”, que nós duas líamos quando éramos crianças. Só a capa me arrancou um sorriso e uma palpitaçãozinha nostálgica, dessas difíceis de descrever. Ao virá-la, vinha a inscrição “Maine Fonseca – 3ª série”, na letra inconfundível da minha mãe (a mesma caligrafia que assegurou por anos, aos outros e a nós mesmas, que os nossos livros e cadernos de escola realmente nos pertencia). Meus olhos brilharam! Sim, porque seria legal ver uma edição de um livro cuja história me prendia a atenção – e convenhamos que entreter uma criança de 6 anos sem luzinhas e barulhos não é lá tarefa tão fácil. Só que o que minha irmã me trazia era mais do que isso. Era A edição! Aquela que nossos dedos engordurados de bolacha recheada manusearam com tanto afinco!

Após analisar a minha reação,  penso que eu deveria ter guardado outros livros, os que eu gostava muito, seja para mostrá-los para possíveis futuros filhos (como fez meu pai com duas edições que ele ganhou quando pequeno e que nos encantavam tanto), ou pelo simples prazer de tê-las como relíquias de infância. Agora não dá mais tempo de recuperar livros que estão há anos circulando (e, vejam, sou a favor da circulação de livros, só falo daquelas edições do coração mesmo), mas dá para resgatá-los na estante meio bagunçada e às vezes traiçoeira da memória. Dessas prateleiras eu tirei algo mais de “A Primavera da Lagarta” e outros títulos carregados de lembranças e fiz a lista abaixo, dos livros que eu mais gostava de ler quando era criança. Aí vai:

“A Primavera da Lagarta”, de Ruth Rocha – Imagino que o livro que resgatamos tenha sido comprado entre 1989 e 1990, quando eu tinha meus 6 ou 7 anos. Nessa época, depois do ritual de compra de material escolar (que eu adorava, porque era dia de ver e sentir o cheiro “de novo” de várias coisas), eu costumava fuçar nos meus livros e nos da minha irmã, umas três “séries” acima da minha na escola. Por isso esse, com o nome dela, caiu nas minhas mãos. Não sei dizer o que mais me fascinava, mas quando o revi me lembrei muito bem das ilustrações, especialmente a da borboleta em estilo Rita Hayworth. Acho que essa “transformação” dela surpreendia não só os bichos da floresta, que haviam decidido em reunião pelo banimento da lagarta comilona (a conversa entre eles também é bem divertida, especialmente pela presença do camaleão, sempre trocando de opinião), mas me surpreendia também. A protagonista ali, toda excluída e feia no início, se revelando uma bela mulher (talvez até apele para as pretensões de uma garotinha de se transformar em uma linda moça um dia…), mudava todo o rumo da trama! E ainda tinha um aspecto de biologia, ou seja, àquela altura, aprender o ciclo de vida estranho de uma lagarta era uma grande descoberta (ainda acho incrível o processo, mas sem a mesma graça do ineditismo). Além do fato de que as borboletas faziam parte do repertório de desenhos das meninas…Em relação à autora, nem é preciso dizer que suas histórias encantaram a minha geração (deve continuar encantando, aliás). Se pedissem outras listas de livros marcantes da infância por aí, haveria grandes chances de que Ruth Rocha aparecesse com ao menos um título na maioria deles. Quanto à edição, não gosto tanto das ilustrações da edição resgatada… não acho tão bonitas e me parece um pouco estranha  a mistura de bichos fofos e infantilizados com uma borboleta mulher, meio “Gilda”. Hoje , como há outras exigências, os desenhos devem estar diferentes. Mas uma coisa não posso questionar sobre as ilustrações antigas: elas se tornaram memoráveis para mim. Nesse ponto, funcionaram muito bem!

“Menina Joana”, de Eunice Theresa Alves – Eu me lembro claramente de páginas desse livro, especialmente a que descrevia a protagonista dentro de casa, entediada, num dia de chuva. Me identifiquei de imediato com esse trecho!

Além disso, eu gostei tanto, que memorizei o livro, cheio de rimas (não tenho mais a edição, mas me lembro que quase tudo começava com “Menina Joana, Joana Menina” e aí a descrição de várias situações) de cabo a rabo. E fiz um breve sucesso na família com isso. Quando minha mãe percebeu que eu havia decorado “direitinho” me levou pro meu pai, pra tios e avós para “recitar” tudo. Eu devia ter uns seis anos, mas me lembro da cara de orgulho do meu avô, que acompanhava o livro enquanto eu praticamente declamava a história. Recebi vários olhares de “uau” e, claro, fiquei me achando! Devo bons minutos de auto-estima para Joana, sem dúvida.

“De Onde Viemos?”, de Peter Mayle, Arthur Robins e Paul Walter – bom, não sei se é unanimidade, mas acho que muita gente descobriu de onde vinham os bebês com este livro, que imagino que deva estar na milésima edição! No meu caso, pelo que lembro, o livro foi um achado na biblioteca. Alguém (tomara que tenha sido eu!) o descobriu e avisou o resto da classe. Íamos disfarçadamente (e em bando) para a respectiva prateleira para ver como os dois adultos faziam para ter um filho – e havia até um lance de “coceguinhas na barriga”. Olhando hoje, o livro é absurdamente ingênuo, mas na época parecia algo quase pornográfico (eles até apareciam pelados nas ilustrações!). Acho que isso revela um pouco que nós, colegas de classe, tínhamos em comum uma educação cheia de tabus sobre sexo. Talvez hoje a recepção pelas crianças seja diferente. Naquela época o livro revelava muito. No meu caso, descobri como uma tal “sementinha” era gerada, e que não tinha lá muito a ver com o processo de plantar uma flor num vaso…

“A Montanha Encantada”, de Maria José Dupré – mencionei este livro na minha lista da série Vagalume por conta da autora, que também escreveu “Éramos Seis” (um livro bem popular, dá para perceber só de ouvido). Pretendo reler “A Montanha” em breve, porque era um dos livros que eu mais gostava quando era criança (eu já devia ter uns 9 ou 10 anos) – tanto que, apesar de ter uma quantidade razoável de páginas (acho que em torno de 100) eu li e reli umas duas vezes. Era uma história na fazenda, eles saíam para um piquenique e, não me lembro bem como, íam parar dentro da montanha, numa cidade subterrânea ocupada por anões. Posso estar errada, mas me lembro algo de ruas de ouro e de prata… (essa seleção tem mais a ver com memórias do que com os livros em si, lembrem-se). Enfim, eu não sabia o nome de Maria José Dupré na época, mas li mais de um livro seu e gostei muito. E não me lembro de ter achado o livro com cara antiquada – aliás, eu nem devo ter pensado nisso -,  uma qualidade para uma história escrita nos anos 40 e lida por uma criança nascida nos anos 1980. Não?

“Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe – este é o livro mais antigo desta lista. Antigo em dois sentidos: a de criação da história, que é da primeira metade do século 18; e a da edição, que não sei exatamente o ano, mas que é uma relíquia do ponto de vista pessoal, pois foi um presente dado pelos tios dos meu pai a ele em 1957, no seu aniversário de 7 anos. Por que sabemos desse detalhe? A dedicatória – de novo, a inscrição na contracapa (nesse caso é na primeira página mesmo, mas é mais ou menos a mesma coisa). Isso me faz pensar em uma vez em que presenteei o filho de uma amiga com um livro e a recepção dele foi: “Ah, é só um livro”. Pensei: “Como assim é SÓ um livro?!”. Mas não disse nada, e nem a mãe o fez, provavelmente por ter compartilhado com ele o instante de frustração ao desembrulhar o pacote. Fico feliz que meu pai não tenha sentido o mesmo com esse presente que recebeu dos tios e que os tios tenham feito uma dedicatória ao presenteá-lo com o livro, uma história em quadrinhos adaptada por Claudio de Souza e ilustrada por Messias de Melo (publicado pela Editora do Brasil). Eu me lembro de ter um carinho especial por esse livro e um cuidado extra também justamente por ter sido lido pelo meu pai quando ele tinha a mesma idade que eu na época. Pode parecer pouco, mas quando você é criança é estranho imaginar que os pais já foram criança como você. Ao menos eu pensava assim. E isso me aproximava dele e do que ele achava importante – por que, de certa forma, eu intuía que, por ele ter guardado esse livro por tantos anos, aquilo era importante para ele. A história de Crusué por si só já seria interessante. Mas, ah, de novo, era A edição. Aquela que os dedos engordurados do meu pai haviam manuseado há tantos anos e que agora estavam nos meus ou nos da minha irmã. Sei lá, vejo valor nisso. E, felizmente, esta edição continua guardada, além de na memória, no armário.

2 Comment

    amanda cachoeira

    Puxa eu também era apaixonada pela Menina Joana! Li na segunda seria acho que tinha uns 8 anos…. Também sou apaixonada por um livro do Pedro Bandeira que conta a historia de um pardal que se considerava um criador de florestas! Ai que delícia a infancia!

    08 jun 2015 | Responder

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