Séries inspiradas em literatura: Orgulho e Preconceito e Balzac

Faz pouco tempo, estava à espera de episódios novos das séries que acompanho e resolvi arrumar outras, mais antigas, para não ficar tão órfã. Peguei duas na locadora (sim, eu ainda frequento), em semanas diferentes, que me fisgaram de cara  (esse é o problema de ter todos os episódios nas mãos em DVD: se você gosta, não dá para parar de assistir). Achei que caberiam no blog porque, coincidentemente, ambas têm a ver com literatura: uma é uma adaptação de sucesso da BBC (que já passou na TV aberta do Brasil, há um bom tempo) e a outra é inspirada na biografia de Balzac. Enfim, se a associação das duas em um mesmo post não prestar, ao menos as séries em si valem muito a pena.

A capinha acima é do DVD em inglês. Não encontrei a imagem da capa em português, mas é bem parecida

Orgulho e Preconceito – A série foi sucesso nos idos de 1995, quando foi lançada, mas nessa época acho que eu estava mais para série Vagalume do que para Jane Austen.

Anos depois (em 2010, para ser mais exata), tive o primeiro contato com o livro. Da primeira página até a última foram poucos dias, tamanha a capacidade de Austen de envolver o leitor na história (ou alguns leitores – eu, certamente, entre eles). Durante a leitura, cheguei ao ponto de dar uma escapada de visitas que estavam na sala de casa e correr disfarçadamente para o quarto, só para dar uma avançada no conflito Mr. Darcy e Lizzy. Quando vi a série na prateleira da 2001, não resisti – e fiz todo um discurso para convencer o marido, pouco afeito aos dilemas casamenteiros das heroínas de Jane Austen, a me acompanhar na jornada. Gostei muito das atuações desde o início, especialmente a de Colin Firth como Mr. Darcy – o olhar dele, meio austero, meio recalcado, além do mau humor, são muito fiéis ao que eu tinha em mente sobre o personagem.

Em geral, a série não traz grandes ousadias. Tenta se aproximar bastante do livro, parece que o máximo possível, mas faz isso com uma dedicação admirável. Os figurinos estão impecáveis, o elenco se encaixa bem na descrição e no espírito dos personagens, a história tem ritmo e há bons diálogos – com a ironia que pede uma adaptação de Jane Austen.

Aliás, é uma das coisas que achei superior ao filme de Joe Wright, lançado em 2008. Para mim faltou ironia, especialmente ao pai, interpretado por Donald Sutherland. Na série, não. O ator Benjamin Whitrow está ótimo como Mr. Bennet, que deixa claro, em mais de uma cena, o quanto acha a maioria de suas filhas tolas (isso é marcante no livro, e confesso que adoro). Os dois protagonistas também seguram a onda, fazem com que torçamos para que se entendam, mesmo que, como leitores ou espectadores de outras versões, já saibamos o final. Aliás, nem me considero uma pessoa romântica, mas essa história tira de mim meu lado mais inspirado nesse sentido. E acho ótimo que, mesmo que eles não troquem um beijo e mal se toquem intimamente ao longo da trama, o nível de romantismo é alto, sem ser piegas.

Assim como uma legião de fãs, gosto de Jane Austen e pretendo ler mais de seus livros, apesar de já ter visto olhares intimidadores de “olha só, você gosta de livro de mulherzinha”  em certas ocasiões. Ok, me parece que há em sua obra uma predileção pelo tema casamento e expectativas para casar, mas há uma habilidade incrível da autora de descrever situações e personagens. Parece que, para ela, o casamento – convenção que, na época em que ela escrevia, tinha um peso bem maior que hoje, especialmente em termos financeiros- pode ser visto de várias maneiras – como uma forma inteligente, com direito a afinidades entre o casal, como o caso de Elizabeth e Darcy, ou de forma leviana, como a própria mãe e algumas irmãs da protagonista enxergam. Mas claro que há outros detalhes envolvidos. E que a escrita da moça é prodigiosa, também é.

Obs: Para quem não conhece a história, vale ver a sinopse aqui.

Balzac (2000) – Pelo menos para a escolha do ator que viveria Honoré de Balzac, imagino que não tenha havido indecisão nos bastidores. Difícil deve ter sido imaginar um plano B para o papel, caso Gérard Depardieu não topasse. Mas, ufa, ele topou. E enche a tela, com seu tamanho fora do comum e com a personalidade do personagem.

Ao contar a história do escritor, peso pesado na literatura francesa e mundial, a série faz um recorte apenas de sua vida adulta, com alguns poucos flashbacks de sua infância, quando vivia em um internato. A cena, aliás, serve para explicar a relação conflituosa de Balzac com sua mãe, que permeia boa parte do roteiro.  Ao longo dos episódios, há ótimos diálogos entre os dois personagens, que são também uma boa oportunidade de ver Depardieu e Jeanne Moreau, a mãe, chamada Charlotte-Laure, contracenando. Ela fria e obcecada por dinheiro. Ele cheio de rancor pela falta de afeto e um intelectual preocupado com ideias, especialmente com as que lhe rendessem prestígio e dinheiro para sanar suas muitas dívidas.

Aliás, em boa parte, a figura do personagem aparece fugindo literalmente dos credores, que não pode pagar. E há alguns romances, os mais marcantes com mulheres casadas: a Madame de Berny (Virna Lisi), mais velha que ele, e Eve Hanska (Fanny Ardant), polonesa com quem se casou no fim da vida (depois de ela se tornar viúva).

Há ainda algumas participações de grandes autores franceses da época, com quem Balzac se relaciona em alguns momentos, com destaque para Victor Hugo e Stendhal.  O protagonista tem boas conversas com esses escritores, especialmente com Hugo. O roteiro parece ter até um esforço extra em incluir frases sábias dos escritores, o que deixa a conversa dos personagens um pouco forçada, às vezes. Mas como as falas são interessantes, acho que nem dá para considerar um defeito.

Algumas coisas que eu diria que fizeram falta: incluir mais detalhes sobre a criação dos livros na trama e mostrar a relação dele com o pai e os irmãos – a vida familiar do escritor fica mesmo concentrada na mãe. Fora isso, acho que Depardieu fez um retrato bonachão e convincente do escritor, que é mostrado sem excesso de reverências e com um bom número de defeitos – entre eles dever para Deus e o mundo, viver pedindo dinheiro para a mãe, ser viciado em café e ter uma risada bem estranha em um momento em que tenta ser sedutor.

 

3 Comment

    Thaís,

    ótima resenha da série Orgulho e preconceito de 1995. Com sua permissão vou mencionar em meu Jane Austen em Português. Desde já está convidada para um visita!

    Não conhecia a série sobre Balzac assistirei assim que puder.

    abraços,

    21 nov 2011 | Responder

  1. Resenha da minissérie Orgulho e preconceito de 1995 | Jane Austen em Português

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