O Prato Azul-Pombinho, de Cora Coralina

Para mim, ler Cora Coralina foi como me sentar em um sofá antigo, desses de vó,  com xícaras de chá e biscoitinhos de nata à frente, para ouvir uma história sobre os velhos tempos. Desses momentos meio raros, mas que gosto muito, de ouvir os causos de pessoas bem mais velhas sobre aquilo que viveram,  sobre a convivência com pessoas da família que já morreram e hábitos das antigas.

O chá e os biscoitinhos, infelizmente, passaram longe – até porque, quando Cora morreu, em 1985, eu mal sabia andar. Mas suas descrições no poema “O Prato Azul-Pombinho” são tão envolventes que dá para imaginá-la (a velhinha doce, que penso que fosse) narrando em voz alta. Sem contar o fato de me fazerem lembrar das saudosas visitas à casa dos meus avós, quando eles contavam suas peripécias de criança…

No livro, a própria Cora relembra as histórias da bisavó, dona do prato azul-pombinho. Este é o tema desenvolvido na primeira parte da trama. Fala sobre esse objeto de família que enfeitava as festas da casa e até da vizinhança. Era o xodó da bisa, por ser o último de uma coleção antiga de 92 peças. Além disso, carregava em si (mais exatamente na arte oriental que ilustrava a louça) uma lenda, romântica e dramática, contada pela bisavó de forma minuciosa.

Cora retoma essa minúcia para descrever o romance envolvendo dois chineses – uma princesa e um plebeu – apaixonados. Há tantos detalhes na descrição do prato e do romance oriental, que só a imaginação do leitor daria conta da imagem do objeto. Mas, ainda bem, as ilustrações de Lúcia Hiratsuka acompanham o clima “casa de vó” com criatividade. Ao invés de dar logo de cara o desenho todo do prato, por exemplo, ele aparece aos poucos, a cada página um detalhe, em desenhos azuis. Só no desfecho da lenda, é que ele aparece completo, dando tempo para a imaginação.

Em seguida, a história ganha outro ritmo com uma fatalidade: o prato azul-pombinho é quebrado. E, na falta de culpados, a netinha (ou seja, a própria Cora, ainda menina) é quem paga o pato.  Recebe, então, um castigo que a narradora descreve como comum na época, ou seja, passa a usar um colar com os cacos da peça quebrada no pescoço, por um bom tempo.

Em um capítulo extra da edição, há até um texto de Cora sobre como acabou esse tipo de castigo em Goiás. A história é triste, mas faz parte de algumas tradições reais (que hoje parecem até absurdas) que Cora, com linguagem simples e envolvente, conta tão bem.

O PRATO AZUL-POMBINHO
Autor: Cora Coralina
Ilustrações: Lúcia Hiratsuka
Global Editora
40 páginas

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