Leituras

O curta que inspira este post não é exatamente novo para o mundo, mas é recente para mim, que o conheci há alguns meses.  Também não trata de um livro específico – contrariando um pouco o histórico deste blog – , mas sim das leituras de pessoas de vários tamanhos, cores e idades em metrôs e trens de Paris.

Percebemos que a França é o cenário pelo idioma, mas me parece que o documentário poderia ter se passado em outros lugares do mundo sem que tivesse mudado tanto o resultado. Algo que, de certa forma, faz parte do charme despretencioso de “Leituras” (2005) – enfim, o título do filme.

Há nele uma simplicidade na ideia: sim, trata apenas de pessoas lendo seus livros no transporte público, algo que vemos todos os dias por aqui e em viagens mundo afora. A execução também é simples, ao mostrar pessoas com os olhos presos em seus livros, quase alheias à viagem que acontece do lado de fora do vagão em movimento, através da janela. Mas há nesses momentos corriqueiros e supostamente banais uma dimensão poética, talvez por a vida ser tão corrida hoje em dia, fazendo com que esses instantes de quietude pareçam até utópicos; ou por simplesmente mostrarem esse contato tão pessoal (e misterioso para quem observa de fora) entre o leitor e seu livro.

Claro que ajudam a montagem bem feita e as leituras, em off, de trechos feitas pelos próprios leitores –  um dos meus preferidos é o leitor de partituras, que lê cantarolando. Por alguns instantes, quando as vozes de alguns deles aparecem ao mesmo tempo, dá até para imaginar como seria se ouvíssemos os pensamentos das pessoas enquanto andássemos no metrô. Não que eu quisesse isso – é só pensar nos inconvenientes mp3 dos celulares sem fones de ouvidos para desistir da ideia -, mas no filme o recurso ficou bem legal.

Enfim, acho que já falei muito, melhor mesmo é assistir. Antes, uma última curiosidade, que também não é novidade para o mundo, mas entra no quesito “simplicidade bem executada e bem interessante” já citado: o curta foi filmado com câmera de celular. A resolução não está tão boa, mas acho que a diretora merece pontos extras pelo desafio de filmar com o celular, especialmente em 2005.

Mais tarde, em 2009, a diretora Consuelo Lins fez um outro filme nesse espírito no Brasil, chamado “Leituras Cariocas” (os dois foram exibidos alguns anos atrás no É Tudo Verdade). Ainda não vi, mas espero ver em breve (não o encontrei online, quem souber e puder dar um toque…). Bom, aí vai o curta de Paris, que tem até uma participaçãozinha especial de Eduardo Coutinho (ele aparece lendo Flaubert):

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