Seis livros que me fizeram gostar de ler (por Gustavo Martins)

* Gustavo Martins, 28, é o nosso primeiro colaborador convidado para a seção de listas. Ele é jornalista, roteirista, músico e diretor de TV.

Eu leio muito menos livros do que gostaria, com certeza muito menos do que deveria, mas me considero alguém que gosta de ler. Essa condição, pra mim, sempre dividiu as pessoas entre “legais” e “chatas até prova em contrário”, ou seja, a leitura me fez ter uma impressão legal de mim mesmo (o que é importante nesses tempos de psicanálise selvagem, convenhamos).

Como hoje eu vivo basicamente de escrever, uma profissão que implica gostar de ler (nem todo mundo concorda com isso), devo meu sustento aos livros que incentivaram a ler outros livros, então resolvi destacar aqui seis deles, em ordem mais cronológica do que de importância.

1 – Marcelo, Marmelo, Martelo, de Ruth Rocha
Eu teria vários pra indicar entre os infantis, notadamente os do Ziraldo, que disputava minha preferência com a Ruth Rocha nessa época, mas Marcelo, Marmelo, Martelo foi o que mais me marcou (na verdade foi o primeiro que me veio à cabeça agora, o que deve significar a mesma coisa).

O que me fascinou nesse livro foi a ideia de brincar com as palavras, a noção de como os nomes que damos às coisas são convenções arbitrárias – conceito que voltaria a me aparecer anos mais tarde na faculdade, com o nome de semiótica, de forma infinitamente mais chata. Acho que é por conta desse livro que eu amo tanto trocadilhos e pequenos curto-circuitos de linguagem em geral. E por culpa dele, também, nunca deixei de pensar que no fundo todo

discurso não passa de uma convenção, uma brincadeira cujas regras podem ser quebradas quando a gente bem entender. Pensando por esse lado, é um livrinho bem subversivo, esse.

2 – Asterix e a Foice de Ouro, de Albert Uderzo e René Goscinny
Uma das coisas que eu mais agradeço aos meus pais foi o sistema que eles instituíram na minha infância e do meu irmão, que nos dava presentes se lêssemos um determinado número de livros por mês. Parece uma manobra meio pilantra, mas eles também tinham o cuidado de nos guiar para boas leituras, então era como se ganhássemos duas vezes – a primeira por ter lido coisas legais, e a segunda pelo presente em si, que não raro a gente largava logo depois de ganhar.

Uma das minhas maiores fontes de presentes nessa época eram os livrinhos do Asterix. No nosso sistema de bonificação, os álbuns de histórias em quadrinhos contavam como livros, e não vejo porque não deveriam, aliás. Eu li algumas dezenas de álbuns do Asterix, eu e meu irmão tínhamos muito orgulho da coleção quase completa, e destaco esse não sei bem porquê, talvez pela foice na capa, talvez pelo fato de ser o mais estragado de todos, de tanto que lemos.

As histórias do Asterix eram incríveis, cheias de referências políticas que nunca deixavam de lado o enredo e o humor. A ideia dos gauleses naquela pequena aldeia combatendo e humilhando o Império Romano era irresistível, sem contar os personagens, um melhor que o outro – um gordo carregador de menires, o peixeiro fedido, o bardo insuportável, os romanos pedantes e idiotas. Os franceses sempre vão estar em vantagem pra mim por causa do Asterix.

3 – Robin Hood, de Howard Pyle
Ainda no sistema de bonificação por livros lidos (acho que eram três por mês cada irmão pra ganharmos um presente), outra fonte de pontos eram as edições da Itatiaia (ou era Brasiliense? Honestamente não lembro) de clássicos de aventura, que tinham sempre uma mesma capa variando entre o marrom e verde, um desenho pequeno à mão e o título do livro. Li um monte desses, e o título que me vem à cabeça primeiro é o Robin Hood, não sei direito o porquê.

Pra ser honesto os detalhes da história nem me marcaram muito, lembro muito mais da ação frenética que me obrigava a ficar horas lendo o livro sem largar, por medo que se eu não acompanhasse o ritmo do herói ele fosse tomar uma flechada ou algo do gênero. Acho que todo mundo passa por essa fase em seu amadurecimento como leitor, e hoje o mercado tá cheio de opções desse tipo – infelizmente, tirando Harry Potter, todas envolvem vampiros. Talvez por serem escritas praticamente implorando pra virar filmes, elas acabam ficando muito moralistas e previsíveis, mirando sempre o adolescente que se sente estranho perto dos amiguinhos de colégio e aí descobre que faz parte de uma linhagem de não sei quê e blábláblá.

Em todo caso, desde que esse tipo de livro seja uma fase que leve a outros tipos de leitura, já é melhor que cheirar cola. Mas só sob essa condição.

4 – Dom Quixote, de Cervantes
Esse foi o primeiro (e honestamente, acho que único) livro que eu chorei lendo. Aquele final, com o Quixote maluco, me derrubou totalmente. E o que eu mais gosto é que não é uma situação sentimental romântica no sentido óbvio, que envolve um casal ou morte, mas uma sensação de fragilidade, de perda de contato com a realidade. Eu senti ali concretamente que um amigo meu estava ficando louco e nunca mais ia falar comigo de novo.

Foi o primeiro livro que me fez pensar “caramba, isso sim é um clássico, olha só o que fez comigo”. Apesar de grande perto do que eu lia na época, tenho a impressão que devia ser uma versão reduzida, então ainda preciso encarar o original de fato. Mas sem ninguém olhando quando chegar no final.

5 – Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons
Eu gosto tanto dessa série que até fico afobado quando tento convencer as pessoas a lê-la, porque quero que elas entendam de uma vez só o caminhão de qualidades que tem nesse quadrinho. As duas narrativas fazendo contraponto, o mistério do assassino, as referências, as simetrias, a ideia genial de humanizar os heróis até a última consequência, as milhares de referências, a “trilha sonora”…

Pra ser honesto, tem um lado ruim: Watchmen é tão superior a qualquer outra coisa já feita em quadrinhos que me tirou quase todo interesse no formato depois de lê-lo. Algo tipo “ah, pra quê tentar, nada vai ser melhor que isso”. Não existe unanimidade sobre o melhor livro já escrito, mas nos quadrinhos ocidentais pelo menos, acho difícil alguém argumentar contra isso (olha como sou fã!)

Não me surpreende muito que o filme tenha sido um desastre. Torci a favor, mas realmente não acho que Watchmencaiba nesse formato corrido de 120 minutos (nem vejo porque deveria, também). Acho que a experiência tem que ser mesmo lendo e relendo, admirando as capas, voltando atrás das pistas, das referências. Dizem que a versão do diretor é melhor, mas duvido.

6 – Se um Viajante numa Noite de Inverno, de Ítalo Calvino
Foi meu primeiro encontro com o melhor escritor de todos os tempos, na minha ignorante opinião. Talvez não o melhor de todos… é, obviamente não o melhor de todos, tem o Camões, tem o Machado, mas com certeza o que eu mais gostaria de ser. É um jeito meio idiota e vaidoso que eu tenho de gostar de autores, mas quando eu termino um bom livro eu penso “caramba, imagina ter uma mente capaz de escrever um livro como esse?”, e não tem nenhum que eu queira tanto quanto o Calvino.

No caso desse livro, a história de um leitor que não consegue terminar o livro que pega na biblioteca vai se desdobrando sobre si própria, mas longe de ser uma dessas muletas de metalinguagem, é um plano complexo, sutil e muito bem desenhado. No final, causa uma sensação parecida com quando um origami fica pronto – “meu deus, como você pegou uma folha em branco e chegou até esse ponto?” –, sensação que instintivamente eu passei a sempre procurar em livros e filmes e tudo mais.

Dele também recomendo Os Amores DifíceisUm General na Biblioteca, que têm alguns dos melhores contos que eu já li. Admito que quando tentei ler Propostas para o Próximo Milênio e achei um saco, mas é aquela decepção que todo autor preferido te faz em algum momento, ou seja, não diminui o resto da obra.

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