Monstruário

Livro brinca com a seriedade dos catálogos científicos para descrever a esquisitice de monstros

Com capítulos divididos como se fossem tópicos científicos, “O Monstruário” parte da ideia divertida e original de criar uma espécie de catálogo de monstros que assustam as pessoas mundo afora. Logo no início, introduz a premissa de uma forma simpática: há uma espécie de reportagem assinada pela “enviada especial ao país de Monstragália”, em viagem “a convite do Comitê Internacional das Crianças Alertas Contra os Monstros”, para noticiar a descoberta de 12 tipos de monstros.

Esse texto “jornalístico” inclui a entrevista com o monstrólogo Dr. Maurus Isidoros, responsável pela incrível compilação. É ele que explica o que os leitores podem esperar dos bichos temíveis: “Monstros são formas de medo. (…) Tem monstro que a gente inventa, outros que a tradição sustenta”.

A parte seguinte apresenta as criaturas com suas nomenclaturas científicas, cada uma em um capítulo. Em alguns casos – os que achei os mais interessantes – vêm monstros que aparecem quando não sabemos lidar com alguma situação ou com algum sentimento. Há, por exemplo, o Oitolhus, um monstro com o qual muitos adultos poderiam se identificar: cheio de olhos, a criatura vê as coisas todas distorcidas e não como elas realmente são. Tem também o Breus Profundos, que corresponde ao temível escuro de antes de dormir, e Espelhus Culposus, que nos faz ver uma imagem exageradamente ruim de nós mesmos.

Em outros capítulos, entretanto, alguns dos monstros parecem surgir mais da preocupação de adultos em ensinar as crianças sobre alguns assuntos, conferindo um ar mais educativo que criativo, além de fugir da explicação do Dr. Isidorus. São eles o Xifópagus Alimentícius, que traz uma espécie de alerta ao excesso de “porcarias” doces e salgadas que aparecem na alimentação e fazem mal para a saúde; e o Gaseificadus Venenosus, sobre o mal da poluição na natureza.

De toda a forma, os textos assinados pela premiada Katia Canton – ela já ganhou, entre outros títulos, o Jabuti em 1998 por “Maria Martins” – são cuidadosos e legais de ler. Já as ilustrações em branco e preto, de Guazelli, seguem o ritmo “seriedade acadêmica, mas só de brincadeira”, personificando as descrições escritas como se fossem um retrato falado bem humorado. Como exemplo, há o desenho do Medus Gelados, onde aparece um garotinho pequeno seguido por uma mancha escura, com braços semelhantes ao de um polvo como sombra. Maneira esperta de materializar o monstro que chega sorrateiro com a angústia.

MONSTRUÁRIO
Autora:
Katia Canton (veja o site oficial da escritora aqui)
Ilustrações: Guazzelli
Editora: Girafinha
64 páginas

One Comment

    1. Entrevista com Katia Canton (para ouvir) — Bússola de Livros

    Comente: