Onde Vivem os Monstros

“Você não inventa histórias. Você vive sua vida”, diz Maurice Sendak

Há alguns meses, num primeiro contato com o filme de Spike Jonze “Onde Vivem os Monstros”, resolvi escrever uma resenha para este blog sobre o livro que o inspirou, escrito por Maurice Sendak. Desde então, a edição em português (eu só havia encontrado em inglês nas livrarias) é vista em toda parte e o filme está bem perto do lançamento (15 de janeiro), o que me aguçou para outro post. O motivo: ter encontrado, em um livro recente sobre a produção cinematográfica, um texto onde Sendak conta o que o levou a lançar sua obra infantil mais famosa sob o título “Você não inventa histórias. Você vive sua vida”. Nele, narra com honestidade como nasceu o processo criativo, nem imediato nem brilhante, nos anos 1960, e como personagens da memória de infância do autor foram essenciais para o resultado.

De acordo com o relato, “Onde Vivem os Monstros” surgiu de uma tentativa de escrever e ilustrar sua própria história, depois de dez anos como ilustrador de obras alheias. Na época, propôs ao editor o título “Where the Wild Horses Are”, algo como “Onde os Cavalos Selvagens Estão” (ou “Onde Vivem os Cavalos Selvagens”, seguindo a tradução existente). A ideia foi aceita de imediato e o contrato feito, até surgir um problema: Sendak não conseguia desenhar os cavalos que prometeu. Sob certa ira da editora, pensava numa solução quando lhe veio à mente a palavra “things”, que poderia levar a uma infinita possibilidade de desenhos. Por sua vez, lhe veio à memória uma passagem da infância, que chega a ser engraçada. Lembrou de quando ele e os irmãos, ainda crianças, íam a uma cerimônia judaica e encontravam parentes de outros países que, para eles, não pareciam nada atraentes: além de não falarem suas línguas, tinham dentes assustadores e costumavam abraçá-los e beijá-los, dizendo que poderiam comê-los (a expressão “eat you up” traduzida para o português me parece mais assustadora ainda). A lembrança destes tios e tias que temiam e que também amavam veio à tona para criar os monstros que marcaram a literatura infantil dos EUA.

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Tanto no livro como no filme, as figuras tem uma certa complexidade, pois fazem parte da imaginação de Max, o protagonista, quando ele está num momento de raiva e angústia. Ao mesmo tempo em que despertam no garotinho receio, são também amigos com quem ele pode fazer o que quer sem ter que parecer comportado. A obra de Jonze retrata esses monstros como bichos gigantes, peludos, com dentes e garras enormes, transmitindo o ar “selvagem” das ilustrações do livro. A criação dos personagens nas telas esteve sob os olhares atentos de Sendak, que chegou a sugerir aos roteiristas que mantivessem o aspecto “wild”. Mesmo tom que, há décadas atrás, despertou opiniões negativas sobre os monstros, considerados por alguns “assustadores demais para as crianças”.

Coisas legais
– À primeira vista o livro pode parecer nada demais, ainda mais para quem não cresceu acostumado com sua existência e polêmica (nunca tinha ouvido falar dele quando era criança, confesso). Mas ao olhar com calma é interessante notar que se trata de um assunto inusitado para os livros infantis, ou seja, momentos de raiva, “pouco educados” e de confusão de sentimentos que toda criança tem.
– O livro é um exercício de imaginação. O texto é bem enxuto, mas bem articulado com as ilustrações
– Spike Jonze fez um documentário sobre Maurice Sendak, que estreou recentemente na HBO dos EUA. Há mais detalhes sobre o filme aqui, em texto em inglês

Coisas chatas
– O livro não tem no Brasil a mesma tradição que tem nos EUA, o que pode dificultar que o leitor daqui tenha a mesma identificação com o livro

ONDE VIVEM OS MONSTROS

Autor: Maurice Sendak
Páginas: 40
Editora Cosac Naify